Finalistas do Prêmio Portugal Telecom 2010

Na noite de 31/08/2010, foi divulgada a lista dos 10 finalistas ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2010, após uma seletiva entre 54 obras semifinalistas. Além de ser um dos mais importantes prêmios literários em língua portuguesa, com premiações que variam de 15 à 100 mil reais aos três primeiros colocados, é também uma boa indicação do que vem sendo apontado como o melhor da literatura contemporânea em nossa língua. Confira abaixo os 10 e veja se você já leu algum.
Da lista, eu já li o Chico e o Saramago, mas acho que as obras concorrentes não são o melhor deles. Talvez o júri queira fazer uma homenagem póstuma ao Saramago (o que seria justo por um lado - ele nunca ganhou um PPT - mas injusto por outro - se houver outro livro melhor que o dele), mas fora isto, não acho que nenhum dos dois que li ganhe. Pelo que sei, entre os concorrentes mais fortes, está Bernardo Carvalho que já ganhou em 2003 e 2008.
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Amigo Imaginário
Aos oito anos de idade eu tinha um amigo imaginário. Sempre considerei o Fred como o meu lado mais peralta, o culpado pela maioria das encrencas em que me meti. Mas não me arrependo: foi por causa do Fred que eu pude ter uma infância diferente da programada pelos meus pais, fugindo das aulas de piano, esgrima, natação, tênis, equitação etc. Foram os meus pais e os psicólogos contratados pelos meus pais quem me disseram que o meu amigo imaginário seria a compensação por uma perda que eu tive naquela época. O engraçado é que só quando atingi os dezessete anos é que me lembrei do que havia perdido que precisava ser compensado.

O meu avô era um aventureiro por profissão. Curador do museu da capital, tinha orgulho em manter uma coleção particular em casa, geralmente de artesanatos de tribos exóticas de diversas partes do mundo, porém de pouco valor para merecerem um espaço no museu. Sempre que viajava para adquirir uma peça para o museu voltava com outras duas ou três para si. Como seu único neto, eu me divertia muito quando ele me conduzia pela mão explicando o valor de cada objeto, a história de sua origem e mostrando no mapa mundi de onde ele viera. Alguns me faziam sorrir, porém outros me davam medo. Mas nenhum me amedrontava tanto quanto a pequena caixa branca, feita de ossos humanos, com caveiras entalhadas na tampa e proveniente de um povo desconhecido da antiga Mesopotâmia. A história que meu avô contava a respeito dela era que era capaz de realizar os desejos de quem a abrisse. É claro que nunca o vi a abrindo na minha frente e eu também nem queria chegar perto daqueles olhos que pareciam me encarar. Me davam pesadelos. Talvez tenha sido por este motivo que depois de um tempo o meu avô parou de me levar na sua sala de objetos exóticos. Não me lembro de ter voltado lá novamente até atingir a adolescência.

Toda escola tem um valentão e o da minha se chama Raul. Raul gosta de bater nos outros, sente um prazer doentio em ser um brutamontes malvado. Eu e meus colegas sempre mantivemos a devida distância dele esperando nunca sermos importunados. Isso funcionou até o dia em que o Paulinho, amigo meu, esbarrou com o Raul no corredor da escola. Paulinho até tentou justificar que tinha sido sem querer, mas não adiantou. No dia seguinte, Paulinho não foi a aula. Quando fui visitá-lo na casa dele, vi o olho roxo e o lábio cortado. A mãe inocente me contou que ele caíra da bicicleta, mas eu soube de imediato qual era a verdade. E eu não podia fazer nada a respeito. Quem dedurasse o Raul levava uma surra maior. Ele chegava a prometer quebrar o braço dos traidores. Porém foi ali, na casa do Paulinho, que Fred me apareceu mais uma vez e sussurrou outra de suas ideias, que confesso ter gostado.

Coloquei o plano em andamento. Na escola, procurei Raul no canto em que costumava ficar com outros valentões fumando cigarro e beijando garotas, me aproximei e propus: se ele me deixasse andar com ele por duas semanas e me ajudasse a ser um cara popular na escola, eu o ajudaria a entrar na casa do meu avô e levar qualquer objeto de valor que ele quisesse. Contei que meu avô havia falecido há pouco tempo e que eu sabia como entrar na casa que estava se ninguém. Raul me avaliou de cima em baixo, mas acabou topando. Era um negócio bom demais para ele recusar. Contudo, quem não entendeu foi o Paulinho quando me viu andando com o Raul, com as roupas no mesmo estilo dele. Cortou totalmente a amizade comigo. Mas eu o compreendi e pensei que faria o mesmo se estivesse no lugar dele. Paulinho desconhecia o meu plano.

Na noite marcada para a invasão, somente eu e Raul entramos na casa. Eu tinha a chave da porta dos fundos, e usamos lanternas para não chamar a atenção dos vizinhos. Fomos direto para a sala de antiguidades do meu avô. Mesmo sendo uma invasão controlada, a sensação de fazer algo proibido me trouxe à memória a sensação de que eu já tinha feito aquilo no passado. Foi quando vi Raul parar em frente a caixa dos desejos.

- O que é isso?

Expliquei para ele, relembrando as palavras exatas de meu finado avô. Raul pegou a caixa nas mãos enquanto eu me afastei. Aquela quantidade enorme de olhos fúnebres o convidavam a prosseguir. Ele parecia hipnotizado. E eu agora me observava como um garotinho de oito anos. Entrando na sala sorrateiramente junto com um vizinho, Frederico, dois anos mais velho que eu. Ambos chegamos até a caixa, exatamente como acontecia agora, e eu presenciava Frederico abrir a tampa da caixa do mesmo modo como Raul estava fazendo. Postado do outro lado da caixa, eu podia ver com a memória o brilho intenso que saía de dentro da caixa refletir no rosto de Frederico e com os olhos o mesmo brilho iluminando o rosto de Raul.

- Um unicórnio – suspirou Frederico – Nunca vi um assim de tão perto.

Antes que eu tivesse tempo de olhar dentro da caixa, Frederico desapareceu junto com a luz, no mesmo instante que a caixa se fechou. Frederico pareceu ter sido sugado para dentro dela.

- Que beleza! – foram as ultimas palavras que escutei Raul falar antes que ele sumisse por completo, da mesma forma que eu havia presenciado sete anos atrás.

Foi quando o meu avô entrou correndo na sala e viu apenas o seu garotinho sentado atônito no chão em frente a caixa. Errou quando imaginou o que acontecera, que o menino entrara sozinho ali, inocentemente abrira a caixa e se assustara com algo. Ergueu as mãos à cabeça e murmurou que jamais se perdoaria se algo acontecesse ao seu neto. Se aproximou de mim, me de um longo abraço forte, tão longo que ainda o sinto, depois me deu um beijo na testa e me levou até em casa. Antes que eu entrasse, olhei para ele parado na calçada, que se despedia abanando as mãos e com os olhos repletos de lágrimas.

– Vá embora! Vá embora!

Mas o que o velho não conseguia ver é que o seu neto não estava mais sozinho. Todo o caminho até a minha casa e vim acompanhado pelo mesmo garoto que entrou na sala comigo, Fred. Frederico não parecia triste com o que aconteceu, e a partir daquele momento seria sempre o responsável pelas ideias mais criativas que eu tive. Seria o meu melhor amigo, imaginário ou não, a compensação por uma perda na infância, talvez explicada pelo abrupto afastamento do avô, conforme diriam os doutores nas sessões de análise.

A escuridão ainda domina a sala. Calmamente me dirijo até o interruptor e aciono a luz. Surpreso, verifico que a sala está praticamente inalterada desde a minha infância. Poucos itens foram acrescentados por meu avô. E ao lado da caixa com as caveiras, Fred me olha sorrindo, pois mais um de seus planos funcionou. Ao lado dele, Raul o olha, sacode a cabeça negativamente e lhe dá uma bronca, dizendo que agora eu terei dois amigos imaginários, e não há maneira de eu explicar isso sem soar como doido. Fred olha para mim como se não tivesse pensado naquilo até o momento e, cabisbaixo e envergonhado, profere uma única palavra.

- Desculpe.

Desafio proposto no Duelo de Escritores de 21.08.2010 com o tema "linhas paralelas" que por sua vez se baseou no desafio Parallel Lines, da Phillips.
Dexter no Escuro, de Jeff Lindsay

Dexter, Jeff Lindsay, Editora Planeta, Cassius Medauar (tradutor) e leitores-fãs totalmente NO ESCURO

O 3º e pior livro da série, até agora.

Pior no quesito tradução, deixando frases totalmente sem nexo. Olha um exemplo: Certa altura Dexter pensa consigo mesmo: "Mesmo não tendo pouca experiência com sonhos, tenho certeza que o meu subconsciente não estava terrivelmente preocupado com Rita." A frase passa a ter sentido com a história de Dexter e do restante do parágrafo se vc substituir "pouca" por "muita".

Pior na contagem dos mais de 40 (isso mesmo!) erros de português (eu contei e anotei todos os números das pgs.) sendo que tinha página com 3 erros! Alooou, faltou dinheiro pra Editora Planeta contratar um revisor que saiba português? Não sou perfeccionista, mas dava pra ter um mínimo de respeito pelo leitor e não considerá-lo um analfabeto contratando analfabetos como revisores?

E o mais lastimável, o pior conteúdo da série por causa da mudança do escritor no perfil do personagem. Enquanto na série da TV Dexter continua arrasando, neste livro o Lindsay resolveu ir pro lado sobrenatural. É como se na metade da temporada CSI virasse Arquivo X. Ambas são boas, mas uma não tem nada a ver com a outra. E um livro narrado em 1ª pessoa, vc colocar outra 1ª pessoa narrando coisas desde antes do surgimento da humanidade é forçar muuuuuito a barra. Lamento, mas este Dexter definitivamente saiu do rumo.

Aqueles que dizem que é o melhor livro da série só podem estar de gozação ou então estão fazendo resenhas pagas. Ou não são verdadeiros fãs da série. Mesmo!

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Fonte: Millôr Online
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Chamego, Rapadura & Forró

O luar dava forma à imensidão do sertão revelando e escondendo a vegetação seca e esparsa, as pedras quais vultos que observavam caladas e a estrada de chão batido que só sabia brilhar e perder-se no horizonte. E os dois amigos, abraçados, caminhando trôpegos e barulhentos.

- Hoje eu sou o ómi mais filiz do mundo, Quinzinho! – e apontou uma garrafa na frente do rosto do outro – segura a pinga que euvô ali mijá um poquinho.

- Glub, i pruquê, glub, dessa aligria, glub, toda?

- Ara, só me fala uma coisa, Quinzinho, num foi a maior festança que tu já viu na vida não?

- Ah, isho foi. (arrôto)

- Pois então, festa como essa vai entra pra história da região, us mininu de hoje quando fô véi vai tudo conta pros mininu que nem nasceu ainda como foi porreta a gafieira dessa noite enluarada, deixanu ess tudo murrenu dinveja.

- Mas pru modiquê vosmicê, glub, gosthou tantho assim da festha, Titonho?

- Ara, i ocê num tava lá não pra vê tudo que si assussedeu di bom? Pra começá, eu nunca na vida tinha visto tanta banda boa de forró, Quinzinho. Tinha aquele tar de Elvispreslêi da Silva, que veio lá das banda do norte, com aquela dança de quebrá as cadeiras. Eu mesmo vi ele quebranu umas três. U ómi tava impossíver. Depois que tiraram os pedaços das cadeiras entrou outras banda retada que custuma tocá lá pra dispois do laguinho, os tar de Besouros. Vish maínha, eu quais fiquei tonto de tanto arrodá cantando Ah o ano a rolha o rééééé, ah o ano a rolha o rééééé. E pra fechá cum chave di ôro veio o Rolinho Uínston e satisfez todo mundo com as múrsica do pangaré brabu, a do trato cum o cramunhão, a do…

- Tithonho, ic, essa úrtima aí eu num gostei não, ic.

- Ara, isso é pruquê você é beato e só pensa em inchê a pança i isquece di dançá cas moça bunita.

- Mas é qui as raphadura tava da gota serena, Tithonho. Vai dizê quioscê num deush uma ixperimentadhinha nelas tamém?

- Ara, craru qui eu comi as rapadura da dona Maria Joana. Eu precisei, num foi? Tive de adoçá o bico e criá corage pra chamá a filha do seu Neno pra dançá. Ô mulé qui mi deixa cas perna bamba, sô! Foi só dispois de uns cinco pedaço é que foi crescenu a coragem lá no meu istomo, crescenu i crescenu até qui quando eu vi já tava na frente dela.

- I disphois, ic?

- I dispois qui eu dancei agarradinho com ela até o pai dela separá nóis pra modimbora. Ê lasquêra. É por isso, Quinzim, que eu digo que festança como essa nunca teve antes por estas banda. Posso até dizê que todas as ôtra festa que aparecerem daqui pra frente vão imitar essa di hoje. Espera só procê vê.

- Tithonho…

- Diga, Quinzinho.

- Será que existhe nesse mundão de Deus coisa melhor que chamego, rapadura e forró?

- Ói, se existe eu não sei não, mas se existir com certeza devem ter levado daqui. I passa pra cá essa garrafa que eu vô esvaziá o resto da mardita antes quiocê beba ela toda sozim.

Desafio do Duelo de Escritores de 11.08.2010, com o tema "Sexo, Drogas e Rock'n Roll".
Lugar de mulher é na livraria, por Gilberto Amendola

A lista de indicados como Melhor Livro do Ano, na categoria Autor Estreante, do Prêmio São Paulo de Literatura (oferecido pelo Governo do Estado), traz um dado estatístico interessante. Dos dez finalistas, oito são mulheres. São elas: Brisa Paim Duarte (A Morte de Paula D); Carol Bensimon (Sinuca Embaixo D’Água); Cintia Lacroix (Sanga Menor); Claudia Lage (Mundos de Eufrásia); Ivana Arruda Leite (Hotel Novo Mundo); Ivone Castilho Benedetti (Immaculada); Lívia Sganzerla Jappe (Cisão) e Maria Carolina Maia (Ciranda de Nós). As exceções ficam por conta de Carlos de Brito e Mello (A Passagem Tensa dos Corpos) e Edney Silvestre (Se Eu Fechar Os Olhos Agora).

Seria esse um sinal? Representaria uma visão feminina no front literário? Ou ser a esmagadora maioria concorrendo a um prêmio de R$ 200 mil é uma pista falsa? Aliás, existe mesmo uma literatura feminina? Quem responde primeiro é Carol Bensimon, 28 anos: “Quanto à literatura feminina, bem, acredito que algumas mulheres a pratiquem, quer dizer, recorrem a temas que costumamos relacionar com literatura feminina e têm um tipo de prosa “feminina”, enquanto para outras escritoras o gênero não é uma questão central.”

Carol reforça seu ponto de vista: “O mesmo acontece com a ‘literatura judaica’, por exemplo: você pode ser judeu e produzir uma literatura muito alinhada com o judaísmo, ou você pode ser um escritor casualmente judeu que não dá a mínima para questões religiosas.”

Já Lívia Sganzerla Jappe, 29 anos, considera o sucesso feminino na literatura um dado relevante. “Se você pensar que até o século 18 não existiam mulheres escritoras – e se existiam assinavam com nomes masculinos… Acho interessante, sim. Embora faça literatura, não literatura feminina”, diz.

Não fazer ‘literatura feminina’ parece ser um ponto incomum entre as escritoras. “A questão de gênero pouco importa. Somos oito escritoras diferentes, com estilos também diferentes”, fala Ivana Arruda Leite, 59 anos. “Até existe uma literatura feminina, mas acho que não me encaixo nisso. Como também existe um jeito masculino de ver o mundo, que também não é o meu”, comenta Ivone Benedetti”, 63 anos. “Também poderia acontecer um recorte por idade. O que, na minha opinião, seria uma besteira. Tem gente que publica bem aos 20 anos e gente que publica mal aos 20 anos. E é claro, tem gente que pública bem aos 60 e gente que publica mal com essa idade.”

Carol levanta outra questão, tendo como base a mesma estatística, mas outra categoria do Prêmio, a de Melhor Livro do Ano – categoria em que não existe nenhuma mulher entre os 10 finalistas. “O fato de haver 8 autoras deve querer, sim, dizer alguma coisa, mas acho que é necessário comparar esse dado com um outro: na categoria dos autores não-estreantes, não há sequer uma mulher. É possível que isso queira dizer que há mais mulheres escrevendo nesse momento do que homens, mas que poucas acabam se consagrando. Outra interpretação (que não invalida a anterior) é que o quadro pode mudar nos próximos dez ou quinze anos.”

O resultado do Prêmio São Paulo de Literatura será divulgado no dia 2 de agosto, no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. (edit: e não é que quem ganhou o prêmio foi um homem? Veja o resultado)

Leia trecho dos livros selecionados:

A Chave de uma História, de Gregório Delgado
CORAÇÃO

Sexta-feira faz uma ano
que meu coração fechou
quem morava dentro dele
tirou a chave e levou

E hoje em dia a chave
está com o meu pai
quem está de fora não entra
quem está dentro não sai

Mamãe, seu filho está nu
a camisa que ele tem
é só uma de seda azul

(pág. 111)
Gregório é paciente de um hospício na rua Pamplona e vive com a sensação de ser constantemente filmado. Desde que sofreu uma desilusão amorosa e tornou-se o que a sociedade chama de "louco", começou a escrever poemas e acabou publicando este livro. Gregório escreve como se fala, nomeando as presenças do mundo no instante em que elas estão sendo criadas. Participou do documentário O Zero Não é Vazio (veja o trailer abaixo) que mostrou alguns loucos escritores loucos.

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