Na última cidade em que morei, havia uma história que circulava entre os moradores locais. Apesar de não haver menção dela em nenhum livro que narra a saga dos personagens ilustres da região, a tradição oral era persistente em contá-la de geração em geração. Talvez fosse um pequeno mito urbano de uma pequena cidade do interior, mas o fato é que quem permanecesse pela cidade por mais de dois dias, ouviria uma das suas inúmeras versões. Das que eu ouvi, a mais verossímil é a que vou contar agora.
Havia um homem que falava igspy. Ninguém sabe se era por culpa dos pais -talvez eles fossem imigrantes de algum país que só falava igspy ou teriam um estranho humor negro na criação do seu rebento - ou se talvez foi por causa de algum trauma de infância, mas o fato é que em toda a vida de tal homem, nunca descobriram a origem daquele vocabulário tão sintético. Mesmo que pedissem para o homem lhes explicar, ele só daria uma resposta: igspy.
Quando garoto, o homem que só falava igspy até poderia ter tido dificuldades na escola, mas as professoras o consideraram um aluno especial e passaram a tratá-lo diferente dos demais. Afinal, nenhuma delas queria ser acusada de preconceituosa ou politicamente incorreta. Enquanto os outros alunos tinham de esforçar-se para aprender a tabuada, a juntar as letras em palavras e as palavras em frases e as frases em orações, o garoto que falava igspy sabia tudo o que precisava saber desde o berço. Nas provas, assinava igspy em seu nome, e em todas as outras respostas, e passava com louvores. Os colegas até tentaram colar algumas respostas dele, mas depois de verem que a nota não se assemelhava à do colega, desistiram. Nem por isso o homem que falava igspy, quando garoto, teve problemas para se socializar. Gostava de aprontar junto com os outros garotos, e quando a diretora pegava-o pelo colarinho e perguntava quem era o culpado, só ouvia sair igspy da boca dele. Isto o tornou muito popular entre os garotos e, por tabela, com as garotas. Uma moradora da cidade, hoje mãe de família, costuma incluir nesta parte da história que ela foi a primeira a beijar o homem que falava igspy quando adolescentes. Ela pedira a ele uma palavra romântica, e ele, sem pestanejar, soltou um igspy. Mas não foi só o que ele falou, mas como falou, que derreteu o coraçãozinho dela, e de tantas outras que vieram depois. O homem que falava igspy aprendeu desde cedo que não precisava de muitas palavras para se conquistar uma mulher. Bastava uma. Todas as moças que o haviam beijado fofocavam entre si de como ele era cavalheiro em não contar aos colegas detalhes de seus encontros amorosos como faziam os outros rapazes. Ele conhecia o valor da discrição. Sua boca era um túmulo, com uma janelinha onde só escapava um igspy de vez em quando.
Quando atingiu a idade adulta, o homem que falava igspy arranjou um emprego de vendedor ambulante de Bíblias. Como gostava de interagir com as pessoas, considerava um desafio e tanto ganhar sozinho o pão de cada dia usando o seu dom natural: a retórica. E foi um sucesso. Bastava uma palavra e já era convidado a entrar, sentar, tomar café e até almoçar, para somente depois, vender tudo o que ele vendia. Sim, de Bíblias ele passou a vender os mais diversos produtos essenciais ao consumismo moderno: seguros, calçados, roupas, planos piramidais, terrenos em loteamentos recém inaugurados, quotas de funerárias etc. E assim fez fama e fortuna por onde passou.
Até o dia em que um político enxergou no homem que falava igspy um diamante a ser lapidado. Chamou-o para um particular e ofereceu-lhe um cargo público. Não algo grandioso, pois o político exortou-o a adquirir experiência começando por baixo. Por isso, virou atendente ao público no setor de aposentadorias. Os velhinhos que lá chegavam diziam que ele era o melhor dos atendentes, pois tratava a todos da mesma forma, sem discriminação. O que ele falava para um, falava para todos. Em pouco tempo galgou o cargo de chefia, onde todos os subalternos entendiam perfeitamente as ordens que o homem que falava igspy dava. Os que não entendiam faziam de conta que entendiam, afinal, não queriam passar por burros na frente dos colegas. Quando não havia mais cargos a avançar dentro da instituição pública, o mesmo padrinho político sugeriu que ele se candidatasse pelo seu partido. E o homem que falava igspy assim o fez. Antes, casou-se com a filha mais nova do político.
Sua campanha foi um sucesso. Os seus adversários poderiam ter frases de efeito, mas nenhum tinha uma palavra de efeito! Em todos os discursos, ele subia no palanque e gritava igspy no microfone levantando os braços. Depois, dava meia volta e saía. O povo, cansado daquelas ladainhas intermináveis e enfadonhas dos concorrentes, aplaudia entusiasmado e pedia bis nos comícios do homem que falava igspy. Era um candidato que não prometia o que não iria cumprir, não falava mentiras para conquistar o voto dos eleitores, não mudava o seu jeito de ser para enganar os outros. O jingle da sua campanha caiu fácil na boca do povo e até as crianças o aprenderam e cantavam de cor. O sucesso foi arrasador. Os colegas de profissão, até os da oposição, eram só elogios. Ele era um homem de uma só palavra. Nunca voltava atrás no que dizia. E como sabiam que ele não daria com a língua nos dentes e sabia guardar segredos sujos e corruptos, encheram os bolsos dele com as propinas das maracutaias que lhe ofereciam. A sua escalada política foi vertiginosa. Em pouco tempo chegou à capital do país, rodeado de assessores e partidários. A última vez que ouviram falar do homem que falava igspy na sua terra natal foi da boca de um ex-prefeito que, voltando de uma viagem ao senado, chegou contando que o próximo candidato a presidente era natural da cidade. O sentimento de orgulho percorreu todos os habitantes, que sabiam que estavam sendo bem representados por um homem que pouco falava, mas com muito significado. Cada um lembrava o quanto foram úteis os seus conselhos, as suas respostas. Se entendiam o igspy como um sim, era esta a resposta sábia que o homem que falava igspy estava dando. Se entendiam como um não, da mesma forma. Assim, tudo o que o homem que falava igspy conquistou na sua tragetória de vida foi por ser firme, inabalável e, principalmente, igspy.
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Leituras 2009
JANEIRO
1. O leilão do lote 49, Thomas Pynchon.
2. A casa das belas adormecidas, Yasunari Kawabata.
3. Todas as cidades, a cidade, Renato Cordeiro Gomes.
4. A luz fantástica, Terry Pratchett.
5. A arte cavalheiresca do arqueiro zen, Eugen Herrigel.
6. A marquesa d'O... e outras estórias, Heinrich Von Kleist.
7. Artemis Fowl, Eoin Colfer.
8. Coraline, Neil Gaiman.
9. A Oxford de Lyra, Philip Pullman.
FEVEREIRO
10. O mágico de Oz, Lyman Frank Baum.
11. O perfume, Patrick Süskind.
12. História de um louco amor / Passado amor, Horácio Quiroga.
13. Avante, soldados: para trás, Deonísio da Silva.
14. Hamlet : poema ilimitado, Harold Bloom.
15. Watchmen, Moore/Gibbons.
MARÇO
16. Hamlet, William Shakespeare.
17. Alice no país das maravilhas, Lewis Carroll.
ABRIL
18. Tudo o que eu queria te dizer, Martha Medeiros.
19. Calipso e Ulisses, Simone Athayde.
20. A revoada: O enterro do Diabo, Gabriel García Márquez.
21. Direitos iguais, rituais iguais, Terry Pratchett.
22. O caso dos exploradores de cavernas, Lon L. Fuller.
MAIO
23. O clube dos anjos, Luis Fernando Verissimo.
24. Através do espelho, Jostein Gaarder.
25. A décima segunda noite, Luis Fernando Verissimo.
JUNHO
26. Esaú e Jacó, Machado de Assis.
27. O opositor, Luis Fernando Verissimo.
28. Dagon, H. P. Lovecraft.
JULHO
29. Como me tornei estúpido, Martin Page.
30. Os livros perdidos de Eva, Josh Howard.
31. Singularity 7, Ben Templesmith.
32. A casa dos budas ditosos, João Ubaldo Ribeiro.
33. Esses livros dentro da gente, Stela Maris Rezende.
34. Vagabond v.1, Takehiko Inoue.
35. Oldboy v.1, Tsuchiya/Minegishi.
36. Oldboy v.2, Tsuchiya/Minegishi.
37. Oldboy v.3, Tsuchiya/Minegishi.
38. Estratégia do pensamento e projeto de vida, Michel Echenique Isasa.
39. A arte da ficção, David Lodge.
40. O sagrado e o profano, Mircea Eliade.
AGOSTO
41. Oldboy v.4, Tsuchiya/Minegishi.
42. Oldboy v.5, Tsuchiya/Minegishi.
43. Oldboy v.6, Tsuchiya/Minegishi.
44. Oldboy v.7, Tsuchiya/Minegishi.
45. Ficções, Jorge Luis Borges.
46. Ensaio sobre a cegueira, José Saramago.
47. A vida secreta dos grandes autores, Robert Schnakenberg.
48. Desvendando os segredos da linguaguem corporal, Allan e Barbara Pease.
49. O engenhoso fidalgo D. Quixote de La Mancha, Miguel de Cervantes Saavedra.
50. Narrativas gráficas, Will Eisner.
SETEMBRO
51. O mundo é bárbaro, Luis Fernando Verissimo.
52. Vagabond v.2, Takehiko Inoue.
53. A sedução da palavra, Affonso Romano de Sant'Anna.
54. Vagabond v.3, Takehiko Inoue.
55. O profeta, Khalil Gibran.
56. Oldboy v.8, Tsuchiya/Minegishi.
57. A menina que roubava livros, Markus Suzak.
58. A droga da obediência, Pedro Bandeira.
59. A guerra da arte, Steven Pressfield.
60. Bilbo, o hobbit, Tolkien/Dixon/Wenzel.
61. Vagabond v.4, Takehiko Inoue.
62. Vagabond v.5, Takehiko Inoue.
OUTUBRO
63. Mastigando humanos, Santiago Nazarian.
64. Whiteout: morte no gelo, Rucka/Lieber.
65. Vagabond v.6, Takehiko Inoue.
66. Vagabond v.7, Takehiko Inoue.
67. Hagakure, Yamamoto Tsunetomo.
68. O curioso caso de Benjamin Button, Fittzgerald/DeFilippis/Weir/Cornell.
69. Satanás, Mario Mendoza.
70. Borgia v.1, Jodorowski/Manara.
71. Borgia v.2, Jodorowski/Manara.
72. Borgia v.3, Jodorowski/Manara.
73. Querido e devotado Dexter, Jeff Lindsay.
74. Na busca de um homem, Michel Echenique Isasa.
75. Vagabond v.8, Takehiko Inoue.
76. Vagabond v.9, Takehiko Inoue.
77. Vagabond v.10, Takehiko Inoue.
78. O herói cotidiano, Délia Steinberg Guzmán.
79. Deus existe?, Ratzinger/d'Arcais.
NOVEMBRO
80. Melhor que você mesmo, Steve Farber.
81. Como escrever um livro, Ariel Rivadeneira.
1. O leilão do lote 49, Thomas Pynchon.
2. A casa das belas adormecidas, Yasunari Kawabata.
3. Todas as cidades, a cidade, Renato Cordeiro Gomes.
4. A luz fantástica, Terry Pratchett.
5. A arte cavalheiresca do arqueiro zen, Eugen Herrigel.
6. A marquesa d'O... e outras estórias, Heinrich Von Kleist.
7. Artemis Fowl, Eoin Colfer.
8. Coraline, Neil Gaiman.
9. A Oxford de Lyra, Philip Pullman.
FEVEREIRO
10. O mágico de Oz, Lyman Frank Baum.
11. O perfume, Patrick Süskind.
12. História de um louco amor / Passado amor, Horácio Quiroga.
13. Avante, soldados: para trás, Deonísio da Silva.
14. Hamlet : poema ilimitado, Harold Bloom.
15. Watchmen, Moore/Gibbons.
MARÇO
16. Hamlet, William Shakespeare.
17. Alice no país das maravilhas, Lewis Carroll.
ABRIL
18. Tudo o que eu queria te dizer, Martha Medeiros.
19. Calipso e Ulisses, Simone Athayde.
20. A revoada: O enterro do Diabo, Gabriel García Márquez.
21. Direitos iguais, rituais iguais, Terry Pratchett.
22. O caso dos exploradores de cavernas, Lon L. Fuller.
MAIO
23. O clube dos anjos, Luis Fernando Verissimo.
24. Através do espelho, Jostein Gaarder.
25. A décima segunda noite, Luis Fernando Verissimo.
JUNHO
26. Esaú e Jacó, Machado de Assis.
27. O opositor, Luis Fernando Verissimo.
28. Dagon, H. P. Lovecraft.
JULHO
29. Como me tornei estúpido, Martin Page.
30. Os livros perdidos de Eva, Josh Howard.
31. Singularity 7, Ben Templesmith.
32. A casa dos budas ditosos, João Ubaldo Ribeiro.
33. Esses livros dentro da gente, Stela Maris Rezende.
34. Vagabond v.1, Takehiko Inoue.
35. Oldboy v.1, Tsuchiya/Minegishi.
36. Oldboy v.2, Tsuchiya/Minegishi.
37. Oldboy v.3, Tsuchiya/Minegishi.
38. Estratégia do pensamento e projeto de vida, Michel Echenique Isasa.
39. A arte da ficção, David Lodge.
40. O sagrado e o profano, Mircea Eliade.
AGOSTO
41. Oldboy v.4, Tsuchiya/Minegishi.
42. Oldboy v.5, Tsuchiya/Minegishi.
43. Oldboy v.6, Tsuchiya/Minegishi.
44. Oldboy v.7, Tsuchiya/Minegishi.
45. Ficções, Jorge Luis Borges.
46. Ensaio sobre a cegueira, José Saramago.
47. A vida secreta dos grandes autores, Robert Schnakenberg.
48. Desvendando os segredos da linguaguem corporal, Allan e Barbara Pease.
49. O engenhoso fidalgo D. Quixote de La Mancha, Miguel de Cervantes Saavedra.
50. Narrativas gráficas, Will Eisner.
SETEMBRO
51. O mundo é bárbaro, Luis Fernando Verissimo.
52. Vagabond v.2, Takehiko Inoue.
53. A sedução da palavra, Affonso Romano de Sant'Anna.
54. Vagabond v.3, Takehiko Inoue.
55. O profeta, Khalil Gibran.
56. Oldboy v.8, Tsuchiya/Minegishi.
57. A menina que roubava livros, Markus Suzak.
58. A droga da obediência, Pedro Bandeira.
59. A guerra da arte, Steven Pressfield.
60. Bilbo, o hobbit, Tolkien/Dixon/Wenzel.
61. Vagabond v.4, Takehiko Inoue.
62. Vagabond v.5, Takehiko Inoue.
OUTUBRO
63. Mastigando humanos, Santiago Nazarian.
64. Whiteout: morte no gelo, Rucka/Lieber.
65. Vagabond v.6, Takehiko Inoue.
66. Vagabond v.7, Takehiko Inoue.
67. Hagakure, Yamamoto Tsunetomo.
68. O curioso caso de Benjamin Button, Fittzgerald/DeFilippis/Weir/Cornell.
69. Satanás, Mario Mendoza.
70. Borgia v.1, Jodorowski/Manara.
71. Borgia v.2, Jodorowski/Manara.
72. Borgia v.3, Jodorowski/Manara.
73. Querido e devotado Dexter, Jeff Lindsay.
74. Na busca de um homem, Michel Echenique Isasa.
75. Vagabond v.8, Takehiko Inoue.
76. Vagabond v.9, Takehiko Inoue.
77. Vagabond v.10, Takehiko Inoue.
78. O herói cotidiano, Délia Steinberg Guzmán.
79. Deus existe?, Ratzinger/d'Arcais.
NOVEMBRO
80. Melhor que você mesmo, Steve Farber.
81. Como escrever um livro, Ariel Rivadeneira.
17.8.09
1:38 PM
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3 pitaco(s):
Quando eu ouvir a expressão: "Sou um homem de uma só palavra" vou me lembrar do seu conto... e vou dizer: "Mentiroso, só aí vc já falou 7!" .
Beijos.
igspy
Eu vi esse conto ontem, mas não o li, pois não sei por que, senti que precisaria de tempo para apreciá-lo corretamente. Sem saber como, acertei em deixar pra ler depois. Hoje pela manhã esse conto fez-me sorrir. Não vou chover no molhado. Ótimo como nunca.
Um abraço.
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