Tudo o que eu queria te dizer, de Martha Medeiros

O meu texto anterior (vai por mim, leia antes de continuar) é só um exemplo do que Martha Medeiros fez no livro Tudo que eu queria te dizer (Objetiva, 2007). São várias cartas, cada uma um conto, cada uma revelando uma situação e sentimento difíceis, porém possíveis de acontecerem a qualquer um. É a amante enviando uma carta à esposa. O adolescente se desculpando com a mãe do amigo que matou. A viúva com saudades do falecido. A evangélica querendo ver-se livre do coisa-ruim, quando na verdade está repudiando uma parte dentro dela que não conhece. O mais engraçado é ver o coisa-ruim respondendo na carta seguinte. Enfim, são 176 páginas de cartas fictícias, com muito bom humor e inteligência, mostrando uma grande originalidade e criatividade da escritora gaúcha. Ela mesma admite que “colocar a mim mesma no papel de macho, prostituta, padre, adolescente, esquizofrênicos e, principalmente, no papel das chamadas pessoas normais - que são as mais ricas em histórias pra contar - [...] foi uma aventura” (pg. 173). Ler o livro dá vontade de escrever cartas, sejam reais ou não.

1. Leia a entrevista que a Martha deu para o site 3:AM Magazine Brasil em 25/01/2009.

2. Veja também o texto e vídeo A dor que dói mais, da autora, bastante conhecido nos power-points da vida.

leitura: Abril de 2009
obra: Tudo o que eu queria te dizer, de Martha Medeiros
edição: 1ª, Objetiva (2007), 175 pgs
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Bom

Série Cartas: RANCOR

Cara senhora Beatriz,

Pra encurtar o assunto: eu não te amo, nunca te amei e não sei se quero te amar. Aliás, eu sei: não quero. Prefiro ser direto e simples para você não criar expectativas errôneas a meu respeito. Você nem mesmo deveria ter aparecido na minha vida, eu estava tão feliz, pensando em meu futuro, mas dizem que sempre há algum invejoso para atrapalhar os nossos planos, pra nos mostrar o lado feio da vida.

Lamento se sou rude, mas é inevitável que seja assim, foi você quem começou. Mas eu não sou rude com os que me rodeiam e me conhecem ou com os a quem eu amo e que me amam. Feliz ou infelizmente, você não se encaixa em nenhuma destas categorias: não me conhece, não é alguém que eu amo e duvido que me ame. Se tivesse me amado não teria feito o que fez. Me poupe de sua ladainha tentando se justificar para si mesma dizendo que você era imatura, despreparada, insensível e que sofreu muito por mim e que hoje virou uma pessoa diferente, melhor. Pois se seu sofri por você, nem lembro mais. A minha vida é maravilhosa, tenho a pessoa certa ocupando o seu lugar.

Portanto, pedir para me conhecer melhor e fazer parte da minha vida após me abandonar quando eu era bebê é algo além das minhas possibilidades. Você nunca foi a minha mãe e eu nunca fui o seu filho a não ser durante os nove meses em que me carregou por aí, provavelmente contando os dias para se ver livre de mim. Não duvido muito que tenha até tentado evitar levar essa carga tomando algum remédio abortivo. Pois bem, sobrevivi e não foi graças a você. Foi Deus que olhou por mim, e me colocou nos braços da Dona Ana e do Seu Waldir, meus verdadeiros pais.

Se realmente deseja o meu bem, como afirmou várias vezes, suma da minha vida, desapareça, me esqueça, pois a dor e a vergonha por ter você na minha frente é insuportável para mim. E se você quiser ser chamada de mãe, imite o exemplo dos meus pais, adote algum rejeitado que precise de amor de verdade, e o trate como o ser mais precioso que existe para você, dando a sua vida por ele, e quem sabe, poderá sentir-se novamente incluída na raça dos seres humanos ao ouvir a palavra mãe ser dita por alguém que te olhará nos olhos.

Cordialmente,

Pedrinho

A Revoada : O Enterro do Diabo, de Gabriel García Márquez

Só quem leu Cem Anos de Solidão para saber o que é sentir saudade de Macondo - cidade fictícia e fantástica criada por Gabriel García Márquez - quando escreveu a saga da família Buendía. Mas, pense em alguém que retorna à terra natal e a encontra diferente, mostrando que nela a vida continuou sem ele, e pense mais além, e se esse alguém pudesse voltar no tempo e conhecer a cidade antes de ter passado por ela. Explicando essa viagem toda: existia Macondo antes de Cem Anos de Solidão? A resposta óbvia, e que eu nem sequer desconfiava é sim, Macondo já foi tema do primeiro livro de Gabo, A Revoada : O Enterro do Diabo. Só que neste pré-adendo, o foco é em outra família, mais especificamente o complicado enterro de um personagem que é odiado por toda a cidade. O livro revela que Gabo era grande já no seu primeiro trabalho, utilizando bem algumas técnicas, como as da mudança de narradores (um velho, uma viúva e um garoto) e repetição (num interessante efeito de bailarina de corda). O livro foi publicado em 1955 e seu título original é La Hojarasca que significa, literalmente, a folharada.

leitura: Abril de 2009
obra: A Revoada : O Enterro do Diabo (La Hojarasca), de Gabriel Gacía Márquez, com ilustrações de CARYBÉ
tradução: Joel Silveira
edição: 15ª, Record (1999), 144 pgs
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Bom

2ª Bienal do Livro de Goiás

A Bienal do Livro de Goiás acontecerá do dia 29 de abril à 3 de maio de 2009, no Centro de Convenções de Goiânia. Esta edição homenageia o escritor Bariani Ortênci. O evento inclui a participação de 800 dinamizadores de bibliotecas em cursos específicos, 40 lançamentos de livros de escritores locais, 204 oficinas diversas, 19 cursos, 34 apresentações artísticas e culturais e 27 palestras. A expectativa dos organizadores é que a Bienal receba, nos cinco dias, mais de 100 mil visitantes.

Alguns palestrantes de destaque são:
  • Da Utilidade da Poesia, com Elisa Lucinda Campos Gomes (29/04/2009 às 14h30);
  • Bariani Ortencio: Um Paulistinha Genuinamente Goiano, com Bariani Ortencio, Maria Zaira Turchi (UFG), Vera Maria Tietzmann (UFG) (30/04/2009 às 14h00);
  • Diário Noturno, com Gabriel O Pensador (30/04/2009 às 19h00);
  • A Arte de Contar Histórias, com Nélida Piñon – Academia Brasileira de Letras (RJ) (01/05/2009 às 10h00);
  • Escritor e Leitor: Trocando Carinhos, com Pedro Bandeira (SP) (02/04/2009 às 14h00) e Ensinando a Gostar de Ler (02/04/2009 às 19h00).
Shows que não vou perder:
  • Pedra Letícia (30/04/2009 às 19h00);
  • Gabriel O Pensador (01/05/2009 às 19h00).
Mais informações: www.educacao.go.gov.br/bienal/

Só de sacanagem, de Elisa Lucinda Campos Gomes

Elisa Lucinda é atriz e poetisa, tem vários livros publicados, entre eles, Contos de Vista, A Menina Transparente, e a coleção Amigo Oculto, para crianças; e CDs de poesia, como Semelhante e Notícias de Mim. Criou em 1998 a Escola Lucinda de Poesia Viva – Casa Poema, no Rio de Janeiro, onde coordena oficinas permanentes de poesia.



Meu coração está aos pulos!

Quantas vezes minha esperança será posta à prova?

Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.

Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?

Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?

É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.

Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva o lápis do coleguinha", "Esse apontador não é seu, minha filha". Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.

Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.

Só de sacanagem! Dirão: "Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba" e vou dizer: "Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau."

Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!

House M.D. - 5ª temporada (2008-2009)

5x21 Salvadores
As pessoas só mudam depois de um trauma se queriam mudar antes do trauma. Ou se assistiram muitos especiais infantis.

5x05 Treze da Sorte
Você não deixa os problemas das outras pessoas te afetarem. Não deixa os seus próprios problemas te afetarem. E são esses problemas que nos fazem interessantes. Nunca está fora de controle. O que é bom e chato. Nunca perder o controle também significa que nunca se arrisca. Nunca ultrapassa os seus limites.

5x03 Eventos Adversos
Infelizes salvam mais vidas. Se sua vida tem significado, seu emprego não tem que ter. Erros são mais agradáveis se temos os braços de alguém para ir chorar.

É nobre querer confessar. Mas se os resultados só causam problemas e dor, daí não é nobre. É egoísmo.


5x01 Morrer Muda Tudo
Podemos correr atrás de tudo, mas não iremos conseguir só porque queremos. Prefiro passar a minha vida junto aos pássaros do que jogá-la fora desejando ter asas.

Quase morrer não muda nada. Estar morrendo muda tudo.



House M. D. - 4ª temporada (2007-2008)
House M. D. - 3ª temporada (2006-2007)
House M. D. - 2ª temporada (2005-2006)
House M. D. - 1ª temporada (2004-2005)
Veja a lista completa de temporadas e episódios na Wikipédia.

Calipso e Ulisses, de Simone Athayde

É, faz tempo que eu não lia um goiano. Menos ainda, um de Anápolis. Nunca, uma anapolina. Mas conspirou aquela curiosidade em descobrir o que os conterrâneos andam escrevendo de bom, ou ruim, junto a existência mórbida de amigos que vivem a empurrar livros e autores internacionalmente desconhecidos só porque compartilhamos o gosto pelas palavras, e o resultado é que acabei lendo Calipso e Ulisses, da romancista estreante Simone Athayde. E só porque é estreante (e porque todos um dia serão), e graduanda em Letras (porque eu um dia serei), não vou pegar pesado. Afinal, poderia falar de-mo-ra-da-men-te das falhas do livro, dos clichês (que tanto gosto), dos erros grotescos de impressão e não tão grotescos de gramática (culpa da Kelps pela falta de um revisor com nível médio), da confusão entre narradores nos trechos em que (propositalmente?) parece que caímos sem pára-quedas (olha o clichê, ó) em outro livro. Mas não, não, não não não não!, prefiro ver o livro como um primeiro passo para, talvez, algo grandioso. Tá, o livro não é uma Brastemp (clichê nº 2) e com certeza não leva o Portugal Telecom, pelo qual concorre este ano, provavelmente, com outros livros piores, mas também com melhores, mas pôxa! é o primeiro trabalho dela, e diria que até ficou muito parecido com um Julia ou Sabrina que você já tenha lido, naquela velha receita de romance água-com-açúcar (nº 3) sendo a dosagem de açúcar bastante homeopática, tirando qualquer cena de satisfação erótica entre os mocinhos e transparecendo um sentimento católico muito forte. Se a autora não for católica, é mérito pra ela, terá feito ficção de primeira. Mas se for, prefiro não comentar. Quem sabe no futuro, já com alguns livros escritos em sua bibliografia, este será o que Simone menos vai falar, e mesmo assim, talvez terá sido o mais importante da sua carreira.

leitura: Abril de 2009
obra: Calipso e Ulisses de Simone Athayde
edição: 1ª, Kelps (2008), 148 pgs
compare os preços: Site da Editora
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