Um blogue sobre literatura, filmes, séries, letras de música, língua portuguesa, escrita criativa e um pouco de JLM. Enfim, sempre procurando a luz das palavras
O meu texto anterior (vai por mim, leia antes de continuar) é só um exemplo do que Martha Medeiros fez no livro Tudo que eu queria te dizer (Objetiva, 2007). São várias cartas, cada uma um conto, cada uma revelando uma situação e sentimento difíceis, porém possíveis de acontecerem a qualquer um. É a amante enviando uma carta à esposa. O adolescente se desculpando com a mãe do amigo que matou. A viúva com saudades do falecido. A evangélica querendo ver-se livre do coisa-ruim, quando na verdade está repudiando uma parte dentro dela que não conhece. O mais engraçado é ver o coisa-ruim respondendo na carta seguinte. Enfim, são 176 páginas de cartas fictícias, com muito bom humor e inteligência, mostrando uma grande originalidade e criatividade da escritora gaúcha. Ela mesma admite que “colocar a mim mesma no papel de macho, prostituta, padre, adolescente, esquizofrênicos e, principalmente, no papel das chamadas pessoas normais - que são as mais ricas em histórias pra contar - [...] foi uma aventura” (pg. 173). Ler o livro dá vontade de escrever cartas, sejam reais ou não.
Pra encurtar o assunto: eu não te amo, nunca te amei e não sei se quero te amar. Aliás, eu sei: não quero. Prefiro ser direto e simples para você não criar expectativas errôneas a meu respeito. Você nem mesmo deveria ter aparecido na minha vida, eu estava tão feliz, pensando em meu futuro, mas dizem que sempre há algum invejoso para atrapalhar os nossos planos, pra nos mostrar o lado feio da vida.
Lamento se sou rude, mas é inevitável que seja assim, foi você quem começou. Mas eu não sou rude com os que me rodeiam e me conhecem ou com os a quem eu amo e que me amam. Feliz ou infelizmente, você não se encaixa em nenhuma destas categorias: não me conhece, não é alguém que eu amo e duvido que me ame. Se tivesse me amado não teria feito o que fez. Me poupe de sua ladainha tentando se justificar para si mesma dizendo que você era imatura, despreparada, insensível e que sofreu muito por mim e que hoje virou uma pessoa diferente, melhor. Pois se seu sofri por você, nem lembro mais. A minha vida é maravilhosa, tenho a pessoa certa ocupando o seu lugar.
Portanto, pedir para me conhecer melhor e fazer parte da minha vida após me abandonar quando eu era bebê é algo além das minhas possibilidades. Você nunca foi a minha mãe e eu nunca fui o seu filho a não ser durante os nove meses em que me carregou por aí, provavelmente contando os dias para se ver livre de mim. Não duvido muito que tenha até tentado evitar levar essa carga tomando algum remédio abortivo. Pois bem, sobrevivi e não foi graças a você. Foi Deus que olhou por mim, e me colocou nos braços da Dona Ana e do Seu Waldir, meus verdadeiros pais.
Se realmente deseja o meu bem, como afirmou várias vezes, suma da minha vida, desapareça, me esqueça, pois a dor e a vergonha por ter você na minha frente é insuportável para mim. E se você quiser ser chamada de mãe, imite o exemplo dos meus pais, adote algum rejeitado que precise de amor de verdade, e o trate como o ser mais precioso que existe para você, dando a sua vida por ele, e quem sabe, poderá sentir-se novamente incluída na raça dos seres humanos ao ouvir a palavra mãe ser dita por alguém que te olhará nos olhos.
Só quem leu Cem Anos de Solidão para saber o que é sentir saudade de Macondo - cidade fictícia e fantástica criada por Gabriel García Márquez - quando escreveu a saga da família Buendía. Mas, pense em alguém que retorna à terra natal e a encontra diferente, mostrando que nela a vida continuou sem ele, e pense mais além, e se esse alguém pudesse voltar no tempo e conhecer a cidade antes de ter passado por ela. Explicando essa viagem toda: existia Macondo antes de Cem Anos de Solidão? A resposta óbvia, e que eu nem sequer desconfiava é sim, Macondo já foi tema do primeiro livro de Gabo, A Revoada : O Enterro do Diabo. Só que neste pré-adendo, o foco é em outra família, mais especificamente o complicado enterro de um personagem que é odiado por toda a cidade. O livro revela que Gabo era grande já no seu primeiro trabalho, utilizando bem algumas técnicas, como as da mudança de narradores (um velho, uma viúva e um garoto) e repetição (num interessante efeito de bailarina de corda). O livro foi publicado em 1955 e seu título original é La Hojarasca que significa, literalmente, a folharada.
leitura: Abril de 2009 obra: A Revoada : O Enterro do Diabo (La Hojarasca), de Gabriel Gacía Márquez, com ilustrações de CARYBÉ tradução: Joel Silveira edição: 15ª, Record (1999), 144 pgs compare os preços:Buscapé
A Bienal do Livro de Goiás acontecerá do dia 29 de abril à 3 de maio de 2009, no Centro de Convenções de Goiânia. Esta edição homenageia o escritor Bariani Ortênci. O evento inclui a participação de 800 dinamizadores de bibliotecas em cursos específicos, 40 lançamentos de livros de escritores locais, 204 oficinas diversas, 19 cursos, 34 apresentações artísticas e culturais e 27 palestras. A expectativa dos organizadores é que a Bienal receba, nos cinco dias, mais de 100 mil visitantes.
Alguns palestrantes de destaque são:
Da Utilidade da Poesia, com Elisa Lucinda Campos Gomes (29/04/2009 às 14h30);
Bariani Ortencio: Um Paulistinha Genuinamente Goiano, com Bariani Ortencio, Maria Zaira Turchi (UFG), Vera Maria Tietzmann (UFG) (30/04/2009 às 14h00);
Diário Noturno, com Gabriel O Pensador (30/04/2009 às 19h00);
A Arte de Contar Histórias, com Nélida Piñon – Academia Brasileira de Letras (RJ) (01/05/2009 às 10h00);
Escritor e Leitor: Trocando Carinhos, com Pedro Bandeira (SP) (02/04/2009 às 14h00) e Ensinando a Gostar de Ler (02/04/2009 às 19h00).
Elisa Lucinda é atriz e poetisa, tem vários livros publicados, entre eles, Contos de Vista, A Menina Transparente, e a coleção Amigo Oculto, para crianças; e CDs de poesia, como Semelhante e Notícias de Mim. Criou em 1998 a Escola Lucinda de Poesia Viva – Casa Poema, no Rio de Janeiro, onde coordena oficinas permanentes de poesia.
Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?
Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva o lápis do coleguinha", "Esse apontador não é seu, minha filha". Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.
Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.
Só de sacanagem! Dirão: "Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba" e vou dizer: "Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau."
Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!
5x21 Salvadores As pessoas só mudam depois de um trauma se queriam mudar antes do trauma. Ou se assistiram muitos especiais infantis.
5x05 Treze da Sorte Você não deixa os problemas das outras pessoas te afetarem. Não deixa os seus próprios problemas te afetarem. E são esses problemas que nos fazem interessantes. Nunca está fora de controle. O que é bom e chato. Nunca perder o controle também significa que nunca se arrisca. Nunca ultrapassa os seus limites.
5x03 Eventos Adversos Infelizes salvam mais vidas. Se sua vida tem significado, seu emprego não tem que ter. Erros são mais agradáveis se temos os braços de alguém para ir chorar.
É nobre querer confessar. Mas se os resultados só causam problemas e dor, daí não é nobre. É egoísmo.
5x01 Morrer Muda Tudo Podemos correr atrás de tudo, mas não iremos conseguir só porque queremos. Prefiro passar a minha vida junto aos pássaros do que jogá-la fora desejando ter asas.
Quase morrer não muda nada. Estar morrendo muda tudo.
O texto abaixo segue sendo enviado e reeditado pela internet e fora dela com de autoria de William Shakespeare, mas, segundo o blog Autor Desconhecido, a sua autora na verdade é Verônica Shoffstal. Se bem que o texto alterado já está tão diferente do da Verônica, que pode-se considerar um outro texto, mas nunca de Shakespeare. O vídeo traz a belíssima performance de O Menestrel, na interpretação de Moacir Reis.
After a while Veronica Shoffstall
After a while you learn the subtle difference between holding a hand and chaining a soul and you learn that love doesn't mean leaning and company doesn't always mean security. And you begin to learn that kisses aren't contracts and presents aren't promises and you begin to accept your defeats with your head up and your eyes ahead with the grace of woman, not the grief of a child and you learn to build all your roads on today because tomorrow's ground is too uncertain for plans and futures have a way of falling down in mid-flight. After a while you learn that even sunshine burns if you get too much so you plant your own garden and decorate your own soul instead of waiting for someone to bring you flowers. And you learn that you really can endure you really are strong you really do have worth and you learn and you learn with every goodbye, you learn.
A tradução:
Depois de um tempo Veronica Shoffstall
Depois de um tempo você aprende a sutil diferença entre segurar uma mão e acorrentar uma alma e você aprende que amar não significa apoiar-se e companhia não quer sempre dizer segurança e você começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas e você começa a aceitar suas derrotas com sua cabeça erguida e seus olhos adiante com a graça de mulher, não a tristeza de uma ciança e você aprende a construir todas as estradas hoje porque o terreno de amanhã é demasiado incerto para planos e futuros têm o hábito de cair no meio do vôo Depois de um tempo você aprende que até mesmo a luz do sol queima se você a tiver demais então você planta seu próprio jardim e enfeita sua própria alma ao invés de esperar que alguém lhe traga flores E você aprende que você realmente pode resistir você realmente é forte você realmente tem valor e você aprende e você aprende com cada adeus, você aprende.
Uma das versões do texto que circula pela internet (o texto do vídeo):
Aprender
Depois de algum tempo você aprende a diferença, A sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, E que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos E presentes não são promessas. E começa a aceitar suas derrotas Com a cabeça erguida e olhos adiante, Com a graça de um adulto E não com a tristeza de uma criança. E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, Porque o terreno do amanhã É incerto demais para os planos, E o futuro tem o costume de cair em meio ao vão. Depois de um tempo você aprende Que o sol queima se ficar exposto por muito tempo. E aprende que não importa o quanto você se importe, Algumas pessoas simplesmente não se importam... E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, Ela vai feri-lo de vez em quando E você precisa perdoá-la por isso. Aprende que falar pode aliviar dores emocionais. Descobre que se leva anos para se construir confiança E apenas segundos para destruí-la, E que você pode fazer coisas em um instante, Das quais se arrependerá pelo resto da vida. Aprende que verdadeiras amizades Continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que você tem na vida, Mas quem você tem na vida. E que bons amigos são a família Que nos permitiram escolher. Aprende que não temos que mudar de amigos Se compreendemos que os amigos mudam, Percebe que seu melhor amigo e você Podem fazer qualquer coisa, ou nada, E terem bons momentos juntos. Descobre que as pessoas Com quem você mais se importa na vida São tomadas de você muito depressa, Por isso sempre devemos deixar As pessoas que amamos com palavras amorosas, Pode ser a última vez que as vejamos. Aprende que as circunstâncias e os ambientes Têm influência sobre nós, Mas nós somos responsáveis por nós mesmos. Começa a aprender Que não se deve comparar com os outros, Mas com o melhor que pode ser. Descobre que se leva muito tempo Para se tornar a pessoa que quer ser, E que o tempo é curto. Aprende que não importa aonde já chegou, Mas onde está indo. Mas se você não sabe para onde está indo, Qualquer lugar serve. Aprende que, ou você controla seus atos Ou eles o controlarão, E que ser flexível não significa Ser fraco ou não ter personalidade, Pois não importa quão delicada e frágil Seja um situação, Sempre existem dois lados. Aprende que heróis são pessoas Que fizeram o que era necessário fazer, Enfrentando as conseqüências. Aprende que paciência requer muita prática. Descobre que algumas vezes A pessoas que você espera que o chute quando você cai É uma das poucas que o ajudam a levantar-se. Aprende que maturidade tem mais a ver Com os tipos de experiência que se teve E o que você aprendeu com elas Do que com quantos aniversários você já celebrou. Aprende que há mais dos seus pais em você Do que você supunha. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança Que sonhos são bobagens, Poucas coisas são tão humilhantes E seria uma tragédia se ela acreditasse nisso. Aprende que quando está com raiva Tem o direito de estar com raiva, Mas isso não te dá o direito de ser cruel. Descobre que só porque alguém não o ama Do jeito que você quer que ame, Não significa que esse alguém Não o ame com tudo o que pode, Pois existem pessoas que nos amam, Mas simplesmente não sabem Como demonstrar ou viver isso. Aprende que nem sempre é suficiente Ser perdoado por alguém, Algumas vezes você tem que aprender A perdoar-se a si mesmo. Aprende que com a mesma severidade com que julga, Você será em algum momento condenado. Aprende que não importa Em quantos pedaços seu coração foi partido, Mundo não pára para que você o conserte. Aprende que o tempo não é algo Que possa voltar para trás, Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, Ao invés de esperar que alguém lhe traga flores. E você aprende que realmente pode suportar... Que realmente é forte, E que pode ir muito mais longe Depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor E que você tem valor diante da vida! Nossa dádivas são traidoras E nos fazem perder O bem que poderíamos conquistar, Se não fosse o medo de tentar.
É, faz tempo que eu não lia um goiano. Menos ainda, um de Anápolis. Nunca, uma anapolina. Mas conspirou aquela curiosidade em descobrir o que os conterrâneos andam escrevendo de bom, ou ruim, junto a existência mórbida de amigos que vivem a empurrar livros e autores internacionalmente desconhecidos só porque compartilhamos o gosto pelas palavras, e o resultado é que acabei lendo Calipso e Ulisses, da romancista estreante Simone Athayde. E só porque é estreante (e porque todos um dia serão), e graduanda em Letras (porque eu um dia serei), não vou pegar pesado. Afinal, poderia falar de-mo-ra-da-men-te das falhas do livro, dos clichês (que tanto gosto), dos erros grotescos de impressão e não tão grotescos de gramática (culpa da Kelps pela falta de um revisor com nível médio), da confusão entre narradores nos trechos em que (propositalmente?) parece que caímos sem pára-quedas (olha o clichê, ó) em outro livro. Mas não, não, não não não não!, prefiro ver o livro como um primeiro passo para, talvez, algo grandioso. Tá, o livro não é uma Brastemp (clichê nº 2) e com certeza não leva o Portugal Telecom, pelo qual concorre este ano, provavelmente, com outros livros piores, mas também com melhores, mas pôxa! é o primeiro trabalho dela, e diria que até ficou muito parecido com um Julia ou Sabrina que você já tenha lido, naquela velha receita de romance água-com-açúcar (nº 3) sendo a dosagem de açúcar bastante homeopática, tirando qualquer cena de satisfação erótica entre os mocinhos e transparecendo um sentimento católico muito forte. Se a autora não for católica, é mérito pra ela, terá feito ficção de primeira. Mas se for, prefiro não comentar. Quem sabe no futuro, já com alguns livros escritos em sua bibliografia, este será o que Simone menos vai falar, e mesmo assim, talvez terá sido o mais importante da sua carreira.
leitura: Abril de 2009 obra: Calipso e Ulisses de Simone Athayde edição: 1ª, Kelps (2008), 148 pgs compare os preços:Site da Editora