Decálogo do escritor, de Nelson de Oliveira

1. Ler muito. Ler de tudo. Ler sem preconceito. Os prosadores devem ler bons poemas. Os poetas devem ler boa prosa. Digo isso porque tenho notado que a maioria dos prosadores não aprecia a arte poética, assim como a maioria dos poetas não aprecia a arte da prosa. Isso não é sinal de inteligência. O escritor iniciante também precisa cultivar o gosto pela reflexão teórica. Livros de filosofia, de crítica e de história da literatura precisam freqüentar sua mesa de trabalho.

2. Ler muito. Ler de tudo. Ler sem preconceito. Ler o passado e o presente, o cânone e a atualidade. Digo isso porque tenho notado que metade dos escritores iniciantes aprecia somente a literatura contemporânea, enquanto a outra metade aprecia somente os clássicos. Isso não é sinal de inteligência. O passado e o presente precisam estar em perpétuo diálogo.

3. Ler muito. Ler de tudo. Ler sem preconceito. Ler os brasileiros e os estrangeiros, os daqui e os de lá. Digo isso porque tenho notado que metade dos escritores iniciantes aprecia somente a literatura brasileira, enquanto a outra metade aprecia somente os estrangeiros. Isso não é sinal de inteligência. Certo, eu confesso: eu pertenço ao primeiro time, esse mandamento vale pra mim. Aprecio muito mais a prosa e a lírica brasileiras do que a prosa e a lírica estrangeiras. Por isso tenho me obrigado, ao menos profissionalmente, a estar sempre em contato com os de lá. Minha tese de doutorado foi sobre a lírica portuguesa contemporânea.

4. Ler muito. Ler de tudo. Ler sem preconceito. Ler desconfiando do que está lendo, ler desconfiando do autor, do editor, do livreiro. Desconfie dos livros de sua predileção, desconfie mais ainda dos autores de sua predileção. Livros e autores, ame-os intensamente, sim, mas jamais se entregue à idolatria cega, pois os escritores são mestres na arte da sedução e do engano.

5. Ver muito. Ver de tudo. Ver sem preconceito. Cinema, dança, artes plásticas, teatro, seriados de tevê. Ouvir muito. Ouvir de tudo. Ouvir sem preconceito. Música erudita e popular, clássica e contemporânea. Ler muito. Ler de tudo. Ler sem preconceito. Quadrinhos, quadrinhos, quadrinhos. Jogar muito. Jogar de tudo. Jogar sem preconceito. Videogame, RPG, cosplay.

6. A literatura é antes de tudo linguagem. Linguagem articulada com sensibilidade e talento. Linguagem estética, subjetiva, conotativa, que ultrapassa a linguagem ordinária, objetiva, denotativa. O escritor não deve procurar com avidez o mínimo denominador comum: apenas a linguagem que é acessível à maioria das pessoas. Quem faz isso são os autores de best-sellers, simples contadores de histórias, simples versejadores, não os verdadeiros escritores.

7. Evite o estereótipo, fuja do clichê, corra do chavão, não marque encontro com o lugar-comum. O critério originalidade não é exclusivo apenas do desfile das escolas de samba, ele ainda faz sentido também na atividade literária.

8. Bons sentimentos não fazem boa literatura. Afaste-se do tratamento edificante, repleto de boas intenções. A sociedade está cheia de defeitos, porém a melhor forma de propor soluções não é produzir literatura doutrinária, militante, moralista.

9. A função da boa literatura não é entreter e deleitar, mas inquietar e provocar o leitor. Se a narrativa e o poema passam o tempo todo adulando o leitor, dando-lhe somente o que ele deseja, evitando constrangê-lo ou contrariá-lo, essa narrativa e esse poema são péssimas peças literárias.

10. Prosadores, evitem as formas consagradas, evitem o conto e o romance realista, inventem sua própria forma, a teoria do efeito único e concentrado (Poe e Tchekov) e a do iceberg (Hemingway e Piglia) pertencem ao passado glorioso. Poetas, evitem as formas clássicas, evitem o verso de medida fixa, inventem sua própria métrica, fujam da rima, o poema regularmente metrificado e rimado pertence ao passado glorioso.

* Esse decálogo foi montado a partir dos textos da coletânea A oficina do escritor: sobre ler, escrever e publicar, lançada este ano pela Ateliê Editorial.

Fonte: Terracota Editora

Futebol e Literatura

“Tudo que sei sobre a moral e as
obrigações do homem, devo ao futebol.”
Albert Camus, Nobel de Literatura


Para o brasileiro, é inevitável falar ou ouvir falar de futebol, independente se gosta ou não do esporte bretão. Principalmente em época de Copa do Mundo, fica evidente do porquê vivemos no chamado país do futebol. Desde que Charles Miller desembarcou por aqui, em 1894, trazendo nas mãos duas bolas (de futebol, seu mente suja!) a aceitação popular só fez aumentar. Mas, muito da atual paixão nacional que gira em torno do esporte deve-se aos incentivos não tão inocentes de Getúlio Vargas, exímio articulador popular, que construiu o Maracanã e trouxe a Copa de 1950 para o país, fazendo um espetáculo difícil de ser esquecido pelos eleitores. Acrescente na receita alguns grandes craques como Pelé, Garrincha, Zico e Ronaldo, bem como as vitórias nos mundiais de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002 para fazer com que o futebol chegasse ao que é hoje: parte da vida de todos os quem nascem no Brasil. Mas o futebol vai além de ser o principal esporte e lazer popular, é apontado como uma das principais formas de alienação e controle das massas, e também não deixa de ser um excelente negócio: movimenta 16 bilhões de reais por ano, segundo a Fundação Getúlio Vargas.

Mas o que tem a ver o futebol e a literatura? Quando um esporte exerce tamanha influência a ponto de fazer parte do cotidiano de um país, com os seus termos técnicos como gol, impedimento, drible, atacante, cartão vermelho, pênalti e outros passando para as metáforas populares supõe-se que cedo ou tarde influenciaria artistas, sejam pintores, músicos, escultores e escritores. As obras destes artistas eternizam os seus sentimentos de pessoas comuns sobre coisas comuns. Tanto é que grandes nomes da literatura já fizeram lindos gols usando apenas as palavras. Nelson Rodrigues teve até o estilo literário influenciado pelo esporte e escreveu crônicas que são lidas até hoje, anos depois das partidas narradas. E como negar alguns dos axiomas deixados por ele?

“Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola. A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana. Às vezes, num escanteio bem ou mal batido, há um toque evidentíssimo do sobrenatural.”

“Nossa literatura ignora o futebol - e repito: nossos escritores não sabem cobrar um reles lateral.”

“Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos.”

E quem nunca esboçou um sorriso maroto com as hilárias crônicas de Luis Fernando Verissimo, como a comparativa “Sexo e Futebol”?

“No futebol, como no sexo, as pessoas suam ao mesmo tempo, avançam e recuam, quase sempre vão pelo meio, mas também caem para um lado ou para o outro, e às vezes há um deslocamento. Nos dois é importantíssimo ter jogo de cintura.”

“No futebol, como no sexo, tem gente que se benze antes de entrar e sempre sai ofegante.”

“E tanto no sexo quanto no futebol o som que mais se ouve é aquele ‘uuu’.”

Acrescente à escalação deste time de escritores que foram craques fora de campo, mas colocaram as suas imaginações lá dentro das quatro linhas, Rachel de Queiros, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Fonseca, Sérgio Sant’Anna, Hilda Hilst, Moacyr Scliar, Ignácio de Loyola e Ruy Castro, os uruguaios Horacio Quiroga e Eduardo Galeano, e os ingleses Nick Hornby e Patrick Kennedy, só para lembrar alguns.

A grande jogada destes escritores foi fazer a tabelinha entre duas paixões, o futebol e a literatura, imortalizando jogos e jogadores, craques e pernas-de-pau, dribles, firulas, técnicos, juízes e mães de juízes. Assim, transformaram a arte dos pés em arte das mãos, ambas bonitas de serem vistas e capazes de encher de orgulho o coração de quem assiste, seja torcedor, seja leitor.

Desafio de escrita proposto no Duelo de Escritores, com o tema "Copa do Mundo de Futebol".

A Mansão Valdemar (La Herencia Valdemar, 2010)


Boas adaptações das histórias do universo criado por H. P. Lovecraft costumam mostrar um horror diferente, onde os mistérios e a fantasia são o essencial. E o filme espanhol A Mansão Valdemar (La Herencia Valdemar, 2010) quer justamente prestar uma homenagem ao escritor considerado o mestre da literatura de terror. A ideia é simples: misture desaparecimentos misteriosos dos que se atrevem a entrar sozinhos em uma mansão amaldiçoada com uma trama da era vitoriana envolvendo ocultismo. Adicione como personagens alguns nomes do macabro da época como Aliester Crowley, Lizzie Borden, Belle Gunness e Bram Stroker. Pronto, o resultado é uma surpresa interessante, pelo menos para os fãs de Lovecraft. Particularmente, só o fato de não ser uma produção hollywoodiana já me satisfez, mas os detalhes com a produção também chamam a atenção: desde a abertura do filme contando uma mini-história à parte, a escolha pertinente dos nomes dos lugares e pessoas envolvidos, até ao caprichoso site do filme (com uma seção especial dedicada só ao Lovecraft). Mas já aviso aos desinformados que esta é apenas a primeira parte, sendo que La Herencia Valdemar II, programada para outubro de 2010, a julgar pelas cenas após os créditos finais promete ser melhor ainda.

O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger

Cara, tem um cigarro aí? Não? Então tá. Mas como eu ia dizendo, O Apanhador no Campo de Centeio é um livro muito foda porque, tipo assim, fala de um carinha meio chato, mas que no fundo é gente boa. De verdade. Ele foi expulso da escola umas duzentas vezes e faz um punhado de coisas como procurar uma ex dele, falar com a irmãzinha, ligar bêbado pra um punhado de gente e ir até a casa de um professor viado, antes de contar pros pais que foi expulso outra vez. Igual a ele, eu também não sou muito de dar bola pra viados e também detesto gente falsa e metida. O tal do J. D. Salinger, que era um cara bem locão e escreveu o livro, fala também sobre um troço chamado digressão, que é quando alguém tá falando de um assunto e começa a falar de outro, tipo a minha vó fazia, lembra?, aquela que gostava de falar de doenças bem na hora do almoço, quando todo mundo tava comendo ela vinha com as conversas mais nojentas. Mas, apesar disso, ela era uma velhinha legal, gente boa mesmo. Depois que li o livro fiquei sabendo que fez sucesso porque, tipo foi o primeiro escrito na primeira pessoa, com gírias pra caralho e direto para os adolescentes, e achei o máximo. De verdade. E tem milhões de pessoas mais inteligentes que eu que também gostaram, como o James Dean, Green Day, Pearl Jam e outros aí. Vai ver que é por isso que o livro continua do caralho, mesmo depois de trocentos anos. Agora vou ali comprar uma cerveja. Falou!

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Criminal Minds - 1ª Temporada (2005-2006)

Depois de diversos pedidos, aí estão as frases da 1ª temporada de CM.


1x01 Extreme Agressor
Joseph Conrad disse: "A crença em uma fonte sobrenatural do mal não é necessária. O homem, por si só, é capaz de toda maldade."

Nietzsche uma vez disse: "Quando você olha demais dentro de um abismo, o abismo olha dentro de você."


1x02 Compulsion
Einstein uma vez disse: "Imaginação é mais importante que conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação circunda o mundo."

James Reese uma vez disse: "Existem certas pistas na cena do crime, as quais por sua própria natureza, não permitem a elas mesmas serem coletadas ou examinadas. Como coletar amor, raiva, ódio, medo?"

Faulkner disse uma vez: "Não incomode apenas para ser melhor que seus contemporâneos e predecessores. Tente ser melhor que você mesmo."


1x03 Won't Get Fooled Again
Samuel Johnson escreveu: "Quase todos os absurdos na conduta surge da imitação daqueles, os quais, não conseguimos lembrar."

1x04 Plain Sight
O poeta francês Jacques Rigout disse: "Não esqueça que não posso ver a mim mesmo, mas meu papel se limita a ser aquele que olha no espelho."

Rose Kennedy uma vez disse: "Os pássaros cantam após uma tempestade por que as pessoas não podem ser livres para aproveitar a luz do sol que resta a elas?"


A Última Estação (The Last Station, 2009)

SINOPSE: Filme sobre o escritor russo Leon Tolstói (Christopher Plummer), baseado no romance biográfico homônimo de de Jay Parini (1990), que narra os turbulentos últimos anos de sua vida em que se vê dividido entre a sua doutrina da pobreza e castidade e a realidade cotidiana defendida por sua esposa Sofia Tolstaia (Helen Mirren). Nunca pensei que os últimos dias de Tolstói pudessem ser apresentados de uma forma tão romântica e dramática ao mesmo tempo, com destaque para a incrível interpretação de Helen Mirren.

TRECHOS:
"Tudo o que sei, só sei porque amo." (Leo Tolstoi, Guerra e Paz)

- Você se esquece que eu sou uma leitora experiente, consigo ler em seu rosto cada letra.

“Ama e sê amado. É a única realidade que há no mundo.”

- Eu sou o trabalho da sua vida e você é o da minha. É isso que o amor é.

- Quando cortejei Sofia [...] não queria lhe dizer o que sentia e, no entanto, não queria lhe dizer outra coisa.

“A sua juventude e o seu desejo por felicidade lembram-me cruelmente a minha idade e a impossibilidade de felicidade para mim.”

TRAILER:

Phone Book

Livro combina páginas normais com iPhone para contar histórias

A empresa japonesa Mobile Art Lab criou um produto que é um híbrido entre o iPhone e um livro comum. Batizado de Phone Book, o conceito envolve um livro comum com um local para se encaixar o iPhone. Todas as páginas do livro tem um espaço em que fica a tela do iPhone (ou iPod Touch) para ajudar na interatividade do leitor com a história que está sendo contada. O usuário tem influência nas imagens, além de sons e música. Essa interatividade exige o aplicativo "Ride, Ride" para o aparelho, que pode ser obtido gratuitamente.

A intenção, segundo a empresa, é unir o analógico ao digital e proporcionar momentos de interação entre pais e filhos por meio da tecnologia, da seguinte forma: o livro, destinado às crianças menores de quatro ou cinco anos, precisa do gadget geralmente possuído pelos pais para que usufruam, na totalidade, da narração. O livro conta as aventuras dos irmãos Popo e Momo e suas viagens nos mais diferentes meios de transporte.

A Mobile Art Lab é uma pequena produtora de conteúdo e aplicativos feitos especialmente para aparelhos mobile, como celulares e players de mp4. O empreendimento atesta que, geralmente, os produtos oferecidos para os aparelhos móveis são apenas réplicas daqueles lançados para outras mídias, com o cuidado do lançamento exclusivo para os mobile sendo algo apenas recente. Para a Mobile Art Lab, os celulares já são um meio de entretenimento e não só um meio de comunicação.

O pior do mundo, com carinho, para você

O meu trabalho como advogado público me obriga a viajar pelo interior do país, fazendo contatos com os diversos prefeitos dos municípios brasileiros. Certa vez, depois de algumas horas de voo e outras tantas pelas estradas do interior do Maranhão, tive de parar na pequena cidade de Apicum-Açu. Estava ainda a algumas dezenas de quilômetros do meu destino e como não gosto de pegar a estrada à noite, tive de pernoitar ali. Registrei-me no único hotel da cidade, bastante modesto e procurei junto ao recepcionista onde poderia jantar. Ele me indicou o Bar da Gaúcha, o único “restaurante” aberto aquelas horas, a uma quadra de distância. Fui a pé, percebendo que a vida noturna dos apicum-açuenses era típica do interior: com apenas uma praça central, a da igreja, as crianças jogavam bola sob os últimos resquícios de luz solar enquanto famílias inteiras sentavam-se à porta de suas casas para ver o movimento – basicamente outras famílias fazendo uma lenta caminhada pela praça. Encontrei o bar, que tinha apenas cinco mesas vermelhas de metal, duas ocupadas, e nos fundos um balcão com uma senhora gorda e de rosto bastante vermelho. Como o cardápio verbal consistia em um PF por um real ou um PF com guaraná – de nome desconhecido – por dois reais, escolhi o segundo e me sentei à mesa mais próxima da porta. Apesar de já ter escurecido, o calor da região era algo com o qual eu não estava acostumado. Somente quando me sentei que uma figura sentada à mesa ao lado falou comigo.

- Por acaso você não seria o João Medeiros, de Brasília?

Olhei espantado para ele, pois não só havia acertado a minha cidade quanto o meu nome. Apesar dos lapsos de memória e das transformações que todos sofremos com o passar dos anos, reconheci que se tratava de um antigo colega de faculdade, o Amaury. Cumprimentei-o entusiasmado e depois de um abraço e alguns tapinhas nas costas, puxei a cadeira para me sentar com ele.

- Grande Amaury, o que você faz perdido por estas bandas? – perguntei.

- É uma longa história, mas dá para encurtá-la se você lembrar-se da minha profissão – ele respondeu, como sempre fazia, deixando uma pergunta no ar, enquanto cortava um pedaço de carne.

Destaques da 23ª semana de 2010

1. Assisti esta semana o último episódio da série Luther, da BBC One, que mostra como um final de série pode ser emocionante, moderno e inteligente ao mesmo tempo. Um alívio para os que achavam que de agora em diante os series finales seriam só aquelas coisas intragáveis e sem nexo de Lost. O que mais me chamou atenção nos 6 episódios, além da trama com altas doses de tensão, da vilã sexy e psicótica, dos bandidos com cara de gente como a gente, foram os diálogos de Luther fora do estereótipo do tira burro: mesmo ele sendo um policial, raciocina sobre literatura, filosofia, medicina, psicologia, etc, como se fosse um papo de boteco. A BBC One chama Luther de "dark psychological crime thriller that takes a bold new look at the detective genre", mas eu chamo de obra de arte. Uma segunda temporada não fará falta, pois o final da primeira não deixou nada solto, mas se manterem a qualidade do roteiro, será muito bem-vinda. Eu, que já era fã das séries britânicas desde Life on Mars (que gerou o clone americano) e State of Play (que gerou o filme homeopático com Russell Crowe e Ben Aflleck) agora admito que série boa mesmo tem que ser inglesa.



2. Para os que já conhecem as palestras do TED, encontrei por acaso esta semana a versão brazuca dele, o TEDx São Paulo. Agora, para saber se os palestrantes são do mesmo nível do TED original, só assistindo mesmo. A resenha do evento o define como
"Pensadores brasileiros de várias áreas do conhecimento reunidos em um só lugar para avaliar o papel do nosso país no contexto global. Quais ideias de um país moldado pela diversidade podem ajudar a construir na prática um mundo melhor. Um evento aberto a todos que não querem mais esperar o futuro."
3. Assisti mais um documentário sobre Atlântida: Atlantis - The Evidente (2010, BBC Timewatch). A historiadora Bettany Hughes mostra as similaridades entre os escritos de Platão e as escavações nas ilhas de Santorini e Creta. Disponível nos melhores sites de torret pela internet.

O Príncipe Maldito X

Leia também a Parte IX.

Dizem que a vida é o maior enigma do universo. E que nem mesmo filósofos mais matemáticos, ou os matemáticos mais loucos, ou os loucos mais filósofos jamais conseguiram decifrá-la. E, apesar das probabilidades timidamente apontarem que zero-vírgula-alguma-coisa dos mais iluminados da humanidade provavelmente conseguiram as respostas definitivas para Quem somos, De onde viemos e Para onde vamos, ela também aponta que eles provavelmente morreram por não saberem as respostas de O que você vai fazer com esta faca, Para onde estão me levando e Por que vocês dizem que eu sou louco. Assim, o grande enigma universal continua sem respostas até o presente, pelo menos do lado de cá. Funciona mais ou menos como o espectador que aprecia uma disputa alheia de xadrez ou damas: para se ter um vislumbre geral da partida e dos melhores lances é preciso estar fora do jogo. E se o jogo for a vida...

Nenhum dos visitantes do Castelo Azul queria recorrer à respostas tão extremas para solucionar os enigmas que tinham diante de si. Desejavam continuar vivos, mesmo que a relação causa e consequência costumasse cobrar um imposto pesado dos sortudos sobreviventes. Os deuses do destino detestavam sortudos sobreviventes e, se causar desgraças adicionais a estes não contrabalançasse a roleta da vida, pelo menos era uma forma divertida de vingança. Mas não eram os deuses quem jogavam naquele momento e sim um druida e seus companheiros de viagem contra uma horda de djins traiçoeiros e poderosos. O jogo consistia em um enigma que, dependendo do resultado, traria algo de bom ou algo inimaginavelmente mau aos participantes humanos. E as apostas estavam em aproximadamente doze mil contra cinco que o resultado seria inimaginalmente muito mau.

- Vamos, qual é a resposta? – ameaçou Juzam, o juiz djin da partida.

Nenhum dos presentes sabia como responder à charada. Somente um poderia. Todos os olhos miravam  ansiosos o druida, que parecia pensativo. Desde que a charada ameaçadora que definiria o futuro de suas vidas fora feita, ele fez a única coisa que poderia ser feita em uma situação extrema, em um castelo que não poderiam sair e repleto de djins mágicos e sádicos: sentou-se em posição de meditação, bem no meio do salão, e fechou suavemente os olhos, mantendo a respiração lenta e tranquila. Os seus companheiros entenderam rápido que ele pensava a resposta, buscando-a dentro de si, algo que Carpeaux acharia uma tremenda sandice, já que sempre que buscou algo dentro de si só encontrou arrotos e gases estomacais.

Escritores na TV Câmara

Entre 2004 e 2009, a TV Câmara apresentou um programa de entrevistas chamado SINTONIA. Dos muitos convidados entrevistados por Inimá Simões, destacaram-se muitos escritores famosos, como João Gilberto Noll, Ignácio de Loyola Brandão, Ruy Castro, Milton Hatoum, Carlos Heitor Cony e Luis Fernando Verissimo; e escritoras como Lya Luft, Marina Colasanti, Martha Medeiros, entre outros(as). Estes momentos seriam preciosidades perdidas da TV brasileira, se a TV Câmara não disponibilizasse os vídeos gratuitamente, para assistir e para baixar, em seu sítio.

Atualmente, a tarefa ficou com o programa SEMPRE UM PAPO, com o foco exclusivo na literatura, e por onde já passaram os escritores José Eduardo Agualusa, Mia Couto, Içami Tiba, Drauzio Varella, Rubem Alves, Zuenir Ventura, Tony Belloto, José Romano de Sant'Anna, Cristóvão Tezza, Moacyr Scliar; e as escritoras Mary Del Priore, Adriana Falcão, Fernanda Young e Nélida Piñon, entre outros(as).

Os entrevistados falam sobre os seus livros, inspirações, vidas e um pouco das técnicas de escrita que utilizam. Para assistir as entrevistas basta clicar nos links acima, sendo que estão diferenciados escritores de escritoras devido às limitações da ferramenta de busca no sítio da TV Câmara.


Sintonia: Programa cultural de entrevistas com artistas, acadêmicos e políticos sobre diversos aspectos da realidade cultural e do pensamento brasileiro. Programa exibido entre 2004 e 2009.

Sempre Um Papo: Em parceria com a Associação Sempre Um Papo, a TV Câmara exibe quinzenalmente debates com escritores brasileiros, colocando frente a frente autor e leitor. Sábado, às 18h30.

Campeonato Gaúcho de Literatura (CGL)


Quando a gente pensa que já viu de tudo nessa internet, eis que surge mais uma novidade. E desta vez, das boas. É o Campeonato Gaúcho de Literatura (www.gauchaodeliteratura.com.br e @gauchaodelit). Inspirado na Copa de Literatura Brasileira (cujo site encontra-se sinistramente em manutenção desde o final da última edição), só que restrito aos livros de contos publicados no Rio Grande do Sul, em 2008 e 2009, a disputa do CGL, assim como na CLB, traz duelos entre dois livros, onde somente um avança para a próxima fase. Com direito a xingamento ao juiz pelos torcedores mais fanáticos e tudo. Dos 27 concorrentes, há autores de renome nacional - como Lya Luft e o seu O Silêncio dos Amantes (Record, 2008) - e outros bastante elogiados pela crítica - como Carol Bensimon e o seu Pó de Parede (Não Editora, 2008) - e um punhado de outros menos conhecidos, pelo menos por estas bandas de Goiás, mas nem por isso menos talentosos. Como mais uma das tradições do Sul é revelar bons escritores, vale a pena os leitores de plantão acompanhar de perto esta pendenga, ficando de olho nos mais badalados escritores gaúchos contemporâneos e, quem sabe, torcer para que os outros Estados imitem a ideia. Até lá, eu vou aqui preparando a pipoca para o Goianão de Literatura...

A Menina no País das Maravilhas (2008)

Para os que, como eu, acharam o filme Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 2010) do diretor Tim Burton um vaso feito de cacos retirados de outros filmes (muito déjà-vu de As Crônicas de Nárnia), nada melhor que encontrar uma pérola pouco conhecida como A Menina no País das Maravilhas (Phoebe in Wonderland, 2008). O filme, além de trazer um drama infantil sensível e tocante, mostra as ótimas atuações de Elle Fanning, Felicity Huffman e Patricia Clarkson. Só quem pecou na atuação foi Campbell Scott, que interpretou o caricato diretor do colégio, mas também o papel dele não ajudou muito. O filme usou uma forma original para abordar a [spoiler]Síndrome de Tourette[/spoiler].

Ouse sonhar sua vida.


Sinopse: Um fantástico filme, onde a realidade e os sonhos se encontram. Phoebe (Elle Fanning), é uma menina rejeitada pelos seus colegas de classe, que deseja mais do que tudo participar da peça de teatro da escola, Alice no País das Maravilhas. Com o estress do dia a dia, o comportamento de Phoebe piora cada vez mais criando uma forte pressão em seus pais Hillary (Felicity Huffman) e Peter (Bill Pullman). Ambos tentam compreender e ajudar a filha. Mas Phoebe se esconde em suas fantasias, confundindo realidade com sonho. A menina terá que encarar um duro, doloroso e emocionante processo, passando pela incrível transformação, com a de uma lagarta que se torna uma bela borboleta.

Destaques da 22ª semana de 2010

1. Para os que já seguem o @OCriador pelo Twitter, @RealMORTE é uma ótima pedida, assim como o blog DIÁRIO DA FOICE. Nada como saber o que o futuro nos aguarda, com uma boa dose de humor negro.

2. O divertido blog Doutor Z. traz muito humor em imagens, vídeos e jogos online. Não deixem de experimentar os jogos na Seção Segunda-Preguiça. O nome é bastante sugestivo para os que, assim como o Garfield, "adoram" as segundas-feiras.

L.I.V.R.O, de Millôr Fernandes

Existe entre nós, muito utilizado, mas que vem perdendo prestígio por falta de propaganda dirigida, e comentários cultos, embora seja superior a qualquer outro meio de divulgação, educação e divertimento, um revolucionário conceito de tecnologia de informação.

Chama-se de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas - L.I.V.R.O.

L.I.V.R.O. que, em sua forma atual, vem sendo utilizado há mais de quinhentos anos, representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, nem pilhas. Não necessita ser conectado a nada, ligado a coisa alguma. É tão fácil de usar que qualquer criança pode operá-lo. Basta abri-lo!

Cada L.I.V.R.O. é formado por uma seqüência de folhas numeradas, feitas de papel (atualmente reciclável), que podem armazenar milhares, e até milhões, de informações. As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantém permanentemente em seqüência correta. Com recurso do TPO - Tecnologia do Papel Opaco - os fabricantes de L.I.V.R.O.S podem usar as duas faces (páginas) da folha de papel. Isso possibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os custos à metade!

Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. É que, para fazer L.I.V.R.O.S com mais informações, basta usar mais folhas. Isso porém os torna mais grossos e mais difíceis de ser transportados, atraindo críticas dos adeptos da portabilidade do sistema, visivelmente influenciados pela nanoestupidez.

Cada página do L.I.V.R.O. deve ser escaneada opticamente, e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, no próprio cérebro, sem qualquer formatação especial. Lembramos apenas que, quanto maior e mais complexa a informação a ser absorvida, maior deverá ser a capacidade de processamento do usuário.

Vantagem imbatível do aparelho é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite acesso instantâneo à próxima página. E a leitura do L.I.V.R.O. pode ser retomada a qualquer momento, bastando abri-lo. Nunca apresenta “ERRO FATAL DE SENHA“, nem precisa ser reinicializado. Só fica estragado ou até mesmo inutilizável quando atingido por líquido. Caso caia no mar, por exemplo. Acontecimento raríssimo, que só acontece em caso de naufrágio.

O comando adicional moderno chamado ÍNDICE REMISSIVO, muito ajudado em sua confecção pelos computadores (L.I.V.R.O. se utiliza de toda tecnologia adicional), permite acessar qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder na busca com muita facilidade. A maioria dos modelos à venda já vem com esse FOFO (softer) instalado.

Um acessório opcional, o marcador de páginas, permite também que você acesse o L.I.V.R.O. exatamente no local em que o deixou na última utilização, mesmo que ele esteja fechado. A compatibilidade dos marcadores de página é total, permitindo que funcionem em qualquer modelo ou tipo de L.I.V.R.O. sem necessidade de configuração. Todo L.I.V.R.O. suporta o uso simultâneo de vários marcadores de página, caso o usuário deseje manter selecionados múltiplos trechos ao mesmo tempo. A capacidade máxima para uso de marcadores coincide com a metade do número de páginas do L.I.V.R.O.

Pode-se ainda personalizar o conteúdo do L.I.V.R.O., por meio de anotações em suas margens. Para isso, deve-se utilizar um periférico de Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada - L.A.P.I.S.

Elegante, durável e barato, L.I.V.R.O. vem sendo apontado como o instrumento de entretenimento e cultura do futuro, como já foi de todo o passado ocidental. São milhões de títulos e formas que anualmente programadores (editores) põem à disposição do público utilizando essa plataforma.

E, uma característica de suprema importância: L.I.V.R.O. não enguiça!

Segue um vídeo em espanhol, com certeza adaptado do texto do Millôr:

Os livros de Mike Stilkey

Mike Stilkey é um desenhista que encontrou um jeito diferente de usar aqueles livros que "encalharam" na sua casa: com muita imaginação e uma boa dose de tinta, transformou-os em quadros, esculturas e objetos de decoração. Embora muitos leitores sintam um arrepio ao verem ele "profanando" o objeto de sua sagrada devoção, devemos admitir que o trabalho dele é interessante e bem melhor que destiná-los ao lixão.



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Veja mais imagens visitando a galeria virtual no site do artista: www.mikestilkey.com

Frases de desconhecidos

O Último Medo

A pequena vila de Arzis mantinha-se há séculos isolada da civilização, graças à sua topografia ímpar. De um lado, a densa floresta com os mais perigosos animais selvagens e armadilhas, com um terreno traiçoeiro em que nem os mais experientes caçadores arriscariam entrar sozinhos. De outro, uma cordilheira de montanhas que se estendia por quilômetros, com noventa por cento do ano de neve e ventos fortíssimos. O único contato com o mundo exterior sempre fora, desde que os primeiros desbravadores alemães pisaram naquelas terras, o porto localizado na tímida enseada. Apesar de ser uma vila que subsistia basicamente da pesca, com as suas centenas de moradores, era amedrontadora devido a sua localização. Qualquer novo visitante, provindo do mar, ao ver Arzis pela primeira vez sentia a sensação claustrofóbica ao saber que a única saída dali seria dar meia-volta e deixá-la para trás.

Hoje, porém, se algum barco visitante parasse no porto, estranharia não ver nenhum pescador ou trabalhador, e todos os barcos atracados em plena semana. Alguém poderia pensar que o chuvisco e o frio atrapalhavam os afazeres normais dos habitantes, mas só pensaria isso porque não conhece os descendentes alemães, principalmente depois de enfrentarem por séculos as piores condições que o planeta já designou aos homens.

Saindo-se do porto, é visível logo à extrema direita, um grande galpão com acesso à água, provavelmente usado para guardar os pescados dos dias mais fartos e para o concerto dos pesqueiros menores, mas que na data de hoje encontra-se fechado. Logo ao lado do galpão, uma construção rústica chama a atenção, e apesar do nome talhado em uma prancha de carvalho, “MittelBar”, apresenta um ar convidativo e acolhedor a qualquer transeunte. Porém, neste momento, encontra-se vazio e trancado. A rua principal chama-se “Fere Champenoise” que, enlameada, cruza toda a vila subindo o aclive entre fileiras de lojas e casebres simples. Talvez por causa da garoa, mas o fato é que somente os tons de cinza são visíveis por todo o lado. Se alguém com a pele cinza passeasse por ali poderia dizer que está em seu habitat. Mas o fato é que não há o mínimo sinal de vida ali. Nenhum movimento, nenhuma luz, nenhum rosto à janela. A rua termina na construção mais antiga ainda em pé, a igreja. Localizada no ponto mais alto do vilarejo, como que para abençoar todas as outras construções abaixo de si, resiste com suas pedras e madeiras de outras épocas, com uma torre simples, sem influências góticas ou clássicas, apenas uma estrutura reforçada para abrigar os fiéis das forças da natureza. É a única construção que apresenta luzes em seu interior. Há o som de um homem gritando.

- Silêncio a todos, por favor, silêncio!

Todos param de resmungar enquanto o homem de preto observa com os seus olhos, submersos em duas sobrancelhas espessas. Ele olha para a sua congregação, estão todos ali, afinal, o assunto a ser tratado naquela noite diz respeito a eles. Observa a disposição dos bancos da igreja, alterados para a ocasião, que formam um círculo com algumas cadeiras no centro. Nelas, estão presentes o prefeito, o delegado, o juiz, dois guardas e um caixão aberto. Dentro do caixão há o vulto de uma pessoa, impossível dizer se homem ou mulher, devido à quantidade de faixas enrolando o corpo. E o corpo se contorce levemente à medida que o padre continua seu discurso.