Fora da Caixinha

Mal o dia começara e o calor já estava insuportável. O entrevistador tenta aumentar a velocidade do pequeno ventilador de mesa, mas quando este começa a se chacoalhar fazendo ruídos que só aumentariam a sua dor de cabeça, acaba desistindo da tentativa. Próximo, grita para a porta, mesmo sabendo que seria o primeiro da fila. Mas era a senha para que a secretária fizesse a fila andar. Quando chegara vira dezenas de candidatos, cada um mais estranho e desesperado que outro. Provavelmente noventa por cento não teria qualificações para a vaga. Previsão de mais um longo e cansativo dia.

Os três primeiros candidatos eram o que o entrevistador costumava chamar de arroz com feijão. Não fediam nem cheiravam. Currículos modelo Word, informações de escolaridade e profissionais parcas, incompletas ou inexatas, mesmo para uma lida superficial. Como estes caras querem conseguir um emprego se nem mesmo sabem escrever os seus currículos direito, costumava comentar com os outros entrevistadores durante os intervalos. Quando o quarto candidato entrou, notou algo diferente. Embora fosse jovem, usava terno e gravata sem que estas parecessem roupas emprestadas de última hora. Mostrou postura, carisma e atitude mesmo antes de sentar-se. Estendeu a mão para cumprimentar o entrevistador e perguntou com um sorriso como estava o seu dia de um modo que o entrevistador teve de se conter para não confessar que odiava aquilo tudo e o chamar para tomar um chope. Existem detalhes que já contam ponto a favor mesmo antes da análise curricular.

Entrevistador lia o currículo e o candidato lia o rosto do entrevistador ao deparar-se com a surpresa que lhe havia preparado. O que é isto, perguntou o entrevistador. Bem, começou a responder calmamente o jovem, resolvi me apresentar à empresa de uma maneira diferente, espero que o senhor aprecie. Sim, mas pelo que eu entendi você fez uma lista das coisas que você não faz, é isso? indagou incrédulo. Isto mesmo, ao invés de tentar convencê-lo contando vantagens por tudo o que eu sei fazer, quero mostrar a minha personalidade por aquilo que não faço e não pretendo fazer. O entrevistador voltou a ler silenciosamente alguns dos itens da lista.

“Eu nunca assisti A Fazenda, Casa dos Artistas, Big Brother Brasil ou programas similares. Não quer dizer que ignore o que são, mas justamente não assisto por saber exatamente o que são por meio de outros. Aliás, a televisão não é um dos meus passatempos favoritos nem minha fonte de conhecimento.”

“Não me divirto bebendo até cair ou abusando de qualquer outra droga, ou saindo baladas todas as noites que puder, ou gastando compulsivamente o meu dinheiro em coisas supérfluas, só para esquecer-me dos meus problemas cotidianos e dos problemas do meu país.”

“Eu não fico com uma garota diferente a cada semana, somente para contar vantagem aos amigos ou as tratando como produtos descartáveis feitos para a minha satisfação pessoal.”

“Não pertenço a nenhuma denominação religiosa que imponha limites à minha liberdade de questionar, nem a partido político que me obrigue a apoiar irrestritamente decisões contrárias a minha consciência.”

“Não tenho tanta experiência profissional quanto os outros candidatos, por ser relativamente jovem, nem tenho títulos de graduação, especialização, mestrado e doutorado comprados ou adquiridos porcamente e que prejudicarão mais a mim que aos outros.”

Depois de mais alguns itens, a lista terminava com um pequeno aviso.

“Não tenho a pretensão de mudar para ser uma pessoa pior, e sim o contrário, portanto, se esta empresa procura por pessoas que sejam exatamente o oposto do que sou, também não gostaria de fazer parte dela, para o bem de ambos.”

Senhor …, embora aprecie a sua inventividade, não posso contratá-lo, reconheceu o entrevistador. Tenho de admitir que muitas das ações descritas pelo senhor são praticadas por muitos funcionários, inclusive por mim. O senhor poderia ser motivo de insatisfação e controvérsia na equipe. O entrevistador conclui com a frase padrão: Agradeço pela sua disposição e prometo que entrarei em contato com o senhor caso haja um interesse futuro no seu perfil, tudo bem?

O jovem agradeceu polidamente, não demonstrando nenhum rancor e, antes de sair, pediu o seu currículo para escrever uma pequena observação que havia esquecido. Após a anotação, saiu pela porta. O entrevistador leu o escrito e forçou um sorriso. Gritou pela secretária e quando esta apareceu na sua frente, disse que esperasse algumas horas e depois ligasse para o candidato que acabara de sair dizendo que estava contratado. Antes de entregar o currículo para ela, deu uma última olhada na observação escrita à caneta.

“Eu nunca me contentaria em permanecer em um emprego que subestimasse as minhas capacidades, ganhando uma remuneração miserável e obedecendo calado à ordens de superiores inferiores como se eu fosse apenas uma peça mecânica sem valor.”

Questão de tempo



Os pecados têm vinte anos,
os remorsos têm oitenta. 


(Música Havemos de ir a Viana, da cantora portuguesa Amélia Rodrigues)

Sotaque mineiro: é ilegal, imoral ou engorda?, de Felipe Peixoto Braga Netto


Gente, simplificar é um pecado. Se a vida não fosse tão corrida, se não tivesse tanta conta para pagar, tantos processos — oh sina — para analisar, eu fundaria um partido cuja luta seria descobrir as falas de cada região do Brasil.

Cadê os lingüistas deste país? Sinto falta de um tratado geral das sotaques brasileiros. Não há nada que me fascine mais. Como é que as montanhas, matas ou mares influem tanto, e determinam a cadência e a sonoridade das palavras?

É um absurdo. Existem livros sobre tudo; não tem (ou não conheço) um sobre o falar ingênuo deste povo doce. Escritores, ô de casa, cadê vocês? Escrevam sobre isto, se já escreveram me mandem, que espero ansioso.

Um simples" mas" é uma coisa no Rio Grande do Sul. É tudo menos um "mas" nordestino, por exemplo. O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar. Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar, sensual e lindo (das mineiras) ficou de fora?

Porque, Deus, que sotaque! Mineira devia nascer com tarja preta avisando: ouvi-la faz mal à saúde. Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso? Assino achando que ela me faz um favor.

Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma. Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, só pelo sotaque.

Mas, se o sotaque desarma, as expressões são um capítulo à parte. Não vou exagerar, dizendo que a gente não se entende... Mas que é algo delicioso descobrir, aos poucos, as expressões daqui, ah isso é...

Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas. Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho (não dizem: pode parar, dizem: "pó parar". Não dizem: onde eu estou?, dizem: "ôndôtô?"). Parece que as palavras, para os mineiros, são como aqueles chatos que pedem carona. Quando você percebe a roubada, prefere deixá-los no caminho.

Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem — lingüisticamente falando — apenas de uais, trens e sôs. Digo-lhes que não.

Mineiro não fala que o sujeito é competente em tal ou qual atividade. Fala que ele é bom de serviço. Pouco importa que seja um juiz, um jogador de futebol ou um ator de filme pornô. Se der no couro — metaforicamente falando, claro — ele é bom de serviço. Faz sentido...

Mineiras não usam o famosíssimo tudo bem. Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra: "cê tá boa?" Para mim, isso é pleonasmo. Perguntar para uma mineira se ela tá boa, é como perguntar a um peixe se ele sabe nadar. Desnecessário.

Há outras. Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada. Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer: — Mexe com isso não, sô (leia-se: sai dessa, é fria, etc).

O verbo "mexer", para os mineiros, tem os mais amplos significados. Quer dizer, por exemplo, trabalhar. Se lhe perguntarem com o que você mexe, não fique ofendido. Querem saber o seu ofício.

Os mineiros também não gostam do verbo conseguir. Aqui ninguém consegue nada. Você não dá conta. Sôcê (se você) acha que não vai chegar a tempo, você liga e diz:

— Aqui, não vou dar conta de chegar na hora, não, sô.

Esse "aqui" é outro que só tem aqui. É antecedente obrigatório, sob pena de punição pública, de qualquer frase. É mais usada, no entanto, quando você quer falar e não estão lhe dando muita atenção: é uma forma de dizer, olá, me escutem, por favor. É a última instância antes de jogar um pão de queijo na cabeça do interlocutor.

Mineiras não dizem "apaixonado por". Dizem, sabe-se lá por que, "apaixonado com". Soa engraçado aos ouvidos forasteiros. Ouve-se a toda hora: "Ah, eu apaixonei com ele...". Ou: "sou doida com ele" (ele, no caso, pode ser você, um carro, um cachorro). Elas vivem apaixonadas com alguma coisa.

Que os mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe. É um tal de bonitim, fechadim, e por aí vai. Já me acostumei a ouvir: "E aí, vão?". Traduzo: "E aí, vamos?". Não caia na besteira de esperar um "vamos" completo de uma mineira. Não ouvirá nunca.

Na verdade, o mineiro é o baiano lingüístico. A preguiça chegou aqui e armou rede. O mineiro não pronuncia uma palavra completa nem com uma arma apontada para a cabeça.

Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, a mineira. Nada pessoal. Aqui certas regras não entram. São barradas pelas montanhas. Por exemplo: em Minas, se você quiser falar que precisa ir a um lugar, vai dizer:

— Eu preciso de ir.

Onde os mineiros arrumaram esse "de", aí no meio, é uma boa pergunta. Só não me perguntem. Mas que ele existe, existe. Asseguro que sim, com escritura lavrada em cartório. Deixa eu repetir, porque é importante. Aqui em Minas ninguém precisa ir a lugar nenhum. Entendam... Você não precisa ir, você "precisa de ir". Você não precisa viajar, você "precisa de viajar". Se você chamar sua filha para acompanhá-la ao supermercado, ela reclamará:

— Ah, mãe, eu preciso de ir?

No supermercado, o mineiro não faz muitas compras, ele compra um tanto de coisa. O supermercado não estará lotado, ele terá um tanto de gente. Se a fila do caixa não anda, é porque está agarrando lá na frente. Entendeu? Deus, tenho que explicar tudo. Não vou ficar procurando sinônimo, que diabo. E não digo mais nada, leitor, você está agarrando meu texto. Agarrar é agarrar, ora!

Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena, suspirará:

— Ai, gente, que dó.

É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras. Eu aviso que vá se apaixonar na China, que lá está sobrando gente. E não vem caçar confusão pro meu lado.

Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro "caça confusão". Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele "vive caçando confusão".

Para uma mineira falar do meu desempenho sexual, ou dizer que algo é muitíssimo bom (acho que dá na mesma), ela, se for jovem, vai gritar: "Ô, é sem noção". Entendeu, leitora? É sem noção! Você não tem, leitora, idéia do tanto de bom que é. Só não esqueça, por favor, o "Ô" no começo, porque sem ele não dá para dar noção do tanto que algo é sem noção, entendeu?

Ouço a leitora chiar:

— Capaz...

Vocês já ouviram esse "capaz"? É lindo. Quer dizer o quê? Sei lá, quer dizer "tá fácil que eu faça isso", com algumas toneladas de ironia. Gente, ando um péssimo tradutor. Se você propõe a sua namorada um sexo a três (com as amigas dela), provavelmente ouvirá um "capaz..." como resposta. Se, em vingança contra a recusa, você ameaçar casar com a Gisele Bundchen, ela dirá: "ô dó dôcê". Entendeu agora?

Não? Deixa para lá. É parecido com o "nem...". Já ouviu o "nem..."?

Completo ele fica:

— Ah, nem...

O que significa? Significa, amigo leitor, que a mineira que o pronunciou não fará o que você propôs de jeito nenhum. Mas de jeito nenhum. Você diz: "Meu amor, cê anima de comer um tropeiro no Mineirão?". Resposta: "nem..." Ainda não entendeu? Uai, nem é nem. Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?

A propósito, um mineiro não pergunta: "você não vai?". A pergunta, mineiramente falando, seria: "cê não anima de ir"? Tão simples. O resto do Brasil complica tudo. É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem...

Certa vez pedi um exemplo e a interlocutora pensou alto:

— Você quer que eu "dou" um exemplo...

Eu sei, eu sei, a gramática não tolera esses abusos mineiros de conjugação. Mas que são uma gracinha, ah isso lá são.

Ei, leitor, pára de babar. Que coisa feia. Olha o papel todo molhado. Chega, não conto mais nada. Está bem, está bem, mas se comporte.

Falando em "ei...". As mineiras falam assim, usando, curiosamente, o "ei" no lugar do "oi". Você liga, e elas atendem lindamente: "eiiii!!!", com muitos pontos de exclamação, a depender da saudade...

Tem tantos outros... O plural, então, é um problema. Um lindo problema, mas um problema. Sou, não nego, suspeito. Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras.

Aliás, deslizes nada. Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão. Se você, em conversa, falar:

— Ah, fui lá comprar umas coisas...

 — Que' s coisa? — ela retrucará.

Acreditam? O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o que.

Ouvi de uma menina culta um "pelas metade", no lugar de "pela metade". E se você acusar injustamente uma mineira, ela, chorosa, confidenciará:

— Ele pôs a culpa "ni mim".

A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios, em Minas... Ontem, uma senhora docemente me consolou: "preocupa não, bobo!". E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras. nem se espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um: "não se preocupe", ou algo assim. A fórmula mineira é sintética. e diz tudo.

Até o tchau. em Minas. é personalizado. Ninguém diz tchau pura e simplesmente. Aqui se diz: "tchau pro cê", "tchau pro cês". É útil deixar claro o destinatário do tchau. O tchau, minha filha, é prôcê, não é pra outra entendeu?

Deve haver, por certo, outras expressões... A minha memória (que não ajuda muito) trouxe essas por enquanto. Estou, claro, aberto a sugestões. Como é uma pesquisa empírica, umas voluntárias ajudariam... Exigência: ser mineira. Conversando com lingüistas, fui informado: é prudente que tenham cabelos pretos, espessos e lisos, aquela pele bem branquinha... Tudo, naturalmente, em nome da ciência. Bem, eu me explico: é que, características à parte, as conformações físicas influem no timbre e som da voz, e eu não posso, em honrados assuntos mineiros, correr o risco de ser inexato, entendem?

Fonte: Releituras.com.

Uma imagem em 35 palavras (3)


Entro no quarto escuro, silenciosamente.
Não posso acordá-lo, já não consigo prever o que ele faria.
Mas preciso descobrir o que meu filho está tramando.
A lanterna me paralisa na primeira página de seu diário.

A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin


O diretor J. J. Abrams confessou que tudo o que uma história precisa para cativar o público é abusar das caixas misteriosas. Não, ele não estava falando para se usar uma fábrica de embalagens como cenário universal. Ele chama as perguntas levantadas no decorrer da história de caixas misteriosas. Não importa se estas caixas serão ou não abertas no final, elas já cumpriram o seu papel: estimular a criatividade do leitor/telespectador e fazê-lo continuar a acompanhar a sequência até o final. E é exatamente isso o que faz o roteirista norte-americano George R. R. Martin em sua série de fantasia As Crônicas de Gelo e Fogo. O primeiro volume dos sete livros previstos (atualmente o escritor lançou o quinto, em inglês), intitulado A Guerra dos Tronos (Leya, 2010), traz várias caixas misteriosas, ou situações conflitantes, que pretendem ser solucionadas nas centenas de páginas que trarão os próximos volumes. Mas não pense que todos os conflitos são deixados para os volumes subsequentes, muitos se resolvem já no primeiro livro. E acabam gerando outros conflitos com isso. Afinal, uma solução para uns personagens pode não ser apreciada por outros. A vida é assim, por que na ficção também não seria? Aliás, Martin conseguiu mesclar muito bem a história real da Europa com intrigas entre nobreza, cleros e reis, estratégias militares, guerras, divergências familiares, entre outras coisas, com uma boa dose de mitologia envolvendo feiticeiros, dragões, mortos-vivos e outros seres fantásticos. Mas este último elemento aparece somente como a cereja do bolo. Apesar de ter criado um universo com elementos mitológicos, estes só são histórias contadas pelos mais antigos de  épocas muito anteriores aos personagens atuais da trama. Mas são lembranças que espreitam e parecem querer ressurgir a qualquer momento.

A história é centrada na família de Eddard "Ned" Stark, senhor de Winterfell, localizado no gelado norte, contrária à família Lannister, nobres em Porto Real, a cidade do rei dos Sete Reinos. Apesar do rei atual, Robert Baratheon, ser amigo íntimo de Eddard, todos ao seu redor não compartilham dos seus sentimentos. Robert pede que Eddard o auxilie a governar, sendo o seu Mão, uma espécie de primeiro-ministro. Mas as intrigas da corte e da família Lennister não vão deixar com que isso seja tarefa fácil para Eddard e sua família. Já chegaram a citar que a inimizade entre os Stark e Lennister baseia-se na saga real dos York contra os Lancaster. A semelhança na sonoridade dos nomes não é mera coincidência. Na rede de tramas intrincadas, cada reino possui famílias com lemas, bandeiras e membros com personalidades diferentes. E cada família possui os seus próprios conflitos internos.

Um dos pontos a favor do livro é a quantidade e qualidade dos personagens complexos. Entende-se, na teoria literária, como personagem complexo aquele mais detalhado, que acaba-se conhecendo tanto as qualidades quanto os defeitos. Nos tornam íntimos deles. Alternar os capítulos sob o ponto de vista de um personagem diferente faz com que o leitor crie empatia automaticamente por alguns e passe a não gostar exatamente de quem estes não gostam. Mas isto acaba sendo conflitante quando o foco narrativo passa de um Stark para um Lannister. Porém, faz o leitor perceber que a história não é maniqueísta e que mesmo as más ações consideradas por uns, sob o ponto de vista de outros são plenamente justificáveis. No primeiro livro, os capítulos aparecem sob a narrativa de 8 personagens: as crianças Bran, Samsa, Arya, o bastardo Jon Snow, Catelyn e Eddard (da família Stark), o anão Tyrion (dos Lannister) e a princesa Daenerys (dos Targaryen). Além de mostrar pontos de vista diferentes, a mudança no foco narrativo também serve para mostrar o desenrolar da história em outros lugares.

A trama pré-história também aguça a curiosidade. Martin montou um passado tão fascinante que não  surpreenderia que, após o término do sétimo livro da série, ele anunciasse outra série contando os primórdios de tudo, seguindo bem de perto o estilo Guerra nas Estrelas (Fox, 1977-2005).

As comparações com O Senhor dos Anéis (Martins Fontes, 2001) são inevitáveis. Até mapas detalhados dos principais lugares da trama (como Winterfell, a Muralha e Porto Real) aparecem da mesma forma como na série antecessora. Apesar de os fãs de J. R. R. Tolkien já amaldiçoarem aos primeiros corajosos a se aventurarem a não só comparar, mas a apontar melhorias, há de se entender que são literaturas escritas para épocas e públicos diferentes. Martin é roteirista tarimbado em Hollywood e escreve as cenas como se narrasse um filme, e agrada em cheio a geração atual. E enquanto n’O Senhor dos Anéis fica bastante evidente a luta do bem contra o mal, em Guerra dos Tronos isso não é tão fácil assim. Outro detalhe que diferencia ambas as obras é a inclusão de personagens femininas como fortes protagonistas, como se George R. R. Martin se inspirasse muito em Tolkien, mas quisesse corrigir aquilo de que não gostou.

As vendas do livro dispararam no Brasil - apesar das críticas negativas à má adaptação da tradução portuguesa - devido ao lançamento da série televisiva (HBO, 2010). Em 10 episódios muito bem produzidos, com atuações, figurino, cenário e efeitos especiais de primeira, fez com que muitos fãs migrassem da telinha para encarar as 592 páginas do livro. Incentivar a leitura de calhamaços é algo inédito em nosso país, mas mesmo que se consiga vencer o primeiro volume será apenas um aperitivo, pois os próximos só aumentam de tamanho (o segundo tem 656 e o terceiro 884 páginas). A previsão de lançamento do quarto livro no Brasil é para janeiro de 2012, na mesma época do lançamento da segunda temporada da série, baseada no segundo livro, A Fúria dos Reis.


Uma imagem em 35 palavras (2)


Os brinquedos de menino
Não são mais como eram antes
Nem bola nem bicicleta
Só fuzis em braços infantes.

As balas deixaram de ser doces
E a estrada
O futuro
De raiar as suas cores.

Luva Branca precisa de você

O dia amanhecia quando o delegado federal Paulo Soares Júnior preparava a equipe para o cumprimento daquele mandado de prisão. A expectativa pela ação que se aproximava gerava uma tensão na equipe que espantava o frio da manhã e o sono da noite mal dormida. O delegado olhou para o relógio, rigorosamente cronometrado com o das equipes em outras cidades do país, para que todos os suspeitos fossem surpreendidos ao mesmo tempo. Como o encarregado da maior investigação dos últimos tempos no Brasil, Soares Jr., apelidado Esse-Jota pelos companheiros, não admitiria falhas. Nem poderia falhar: a cobrança sobre si era grande como nunca antes fora sobre um delegado federal. Mas ele sabia que era normal, afinal, nunca antes na história um presidente da república havia sido assassinado. Ou melhor, não um presidente qualquer, mas a primeira presidenta mulher do Brasil: a falecida petista Dilma Rousseff.

Os pássaros faziam algazarra nas árvores anunciando que o dia começava feliz para eles. Mas era apenas música de fundo. O único som que importava, e que todos ouviam antecipadamente, era o alarme do relógio de puso do delegado SJ. A equipe toda atenta ouviu o alerta e as ordens do chefe, vai vai vai. Uma kombi velha foi parada à rua para que todos os policiais encapuzados e usando coletes pretos com os dizeres Polícia Federal escritos em laranja seguissem correndo para a residência-alvo. Um cachorro latiu na casa ao lado. O policial da vanguarda tocou a campainha. Quando uma voz masculina perguntou quem é do outro lado da porta, a resposta pareceu ecoar pela madrugada. É a polícia federal, abra essa porta. Todos estavam taticamente em posição, preparados para entrar, quando o barulho da fechadura fez-se ouvir. A figura de um homem de terno não era o que esperavam. O homem era muito mais novo que o suspeito que seria detido, após abrir a porta levantou as mãos calmamente, segurando uma folha de papel em uma das mãos.

- Esta é a casa do senhor Olavo Caetano? Temos um mandado de prisão para ele.

- Não, senhores, eu sou o advogado do senhor Caetano. Estávamos aguardando pelos senhores. Se tiverem a gentileza de olharem o papel que estou segurando, verão que se trata de um Habeas Corpus preventivo. Os senhores não poderão levar o meu cliente.

Diante da indecisão do policial, o delegado Soares Jr. tomou a frente. O nervosismo o impedia de prestar atenção aos detalhes, mas o fax do documento parecia legítimo. Emitido por uma instância superior à do mandado de prisão, um conhecido ministro do Supremo Tribunal Federal, revelava pela data e hora de expedição que fora enviado poucas horas antes, naquela mesma noite. O delegado tinha de reconhecer, mais uma vez o Judiciário atrapalhava o seu trabalho. Cada vez mais o sentimento dos policiais era perguntar-se de que adiantava investigar e prender os criminosos se os juízes os soltassem logo em seguida. O olhar desanimado olhou para os outros que aguardavam alguma ordem sua, mas o que ouviram foi só um pedido para todos voltarem aos carros. O advogado na porta sorriu e o delegado pensou no quanto queria dar uma porrada bem dada no meio daquele sorriso de escárnio, quando teve seu pensamento interrompido.

- O senhor pode entrar, se quiser, delegado. O senhor Caetano o convida para uma xícara de café.

Era uma proposta inusitada, pensou o delegado, e a surpresa deve ter transparecido em seu rosto. O advogado continuava com o mesmo sorriso, como se fosse garoto-propaganda de clinica odontológica ou de alguma empresa de óleo de peroba. O delegado perguntou-se o que mais ele poderia perder, além das horas de serviço dos membros de sua equipe jogadas fora por causa de um idiota do Supremo. Resolveu arriscar. Acompanhou o advogado, que teve o cuidado de fechar a porta. Entraram em um lobby grande, mas não ao ponto de ser extravagante. Pelo contrário, a decoração revelava muito bom gosto com as cores, espaços, móveis e objetos de decoração. Algumas obras de arte davam a impressão de que a construção ao redor é que as complementava e não o contrário. Atravessaram um salão onde o delegado pôde observar igual sintonia, mesmo com alguns objetos tecnológicos de ultima geração incluídos no ambiente. A sala de jantar possuia uma mesa para vinte pessoas e estava parcialmente posta com uma rica variedade de frutas, pães, sucos e queijos. Na cabeceira, um homem de cabelos brancos tomava uma xícara de algo bastante quente.

- Delegado Soares Júnior – sorriu entusiasmado enquanto se levantava e estendia a mão para cumprimentá-lo – estou agradecido por aceitar o meu convite. Espero que não fique chateado por ter tomado algumas precauções para que o nosso encontro ocorresse à minha maneira e não à sua. Sente-se, por favor, e me acompanhe no desjejum.

- Senhor Caetano, eu sou um cara curto e grosso, vim aqui para prendê-lo, não vejo como esta conversa pode beneficiar o senhor – respondeu o delegado enquanto sentava-se, assim como o advogado.

- Sei que o senhor quer me prender por causa do texto “Luva Branca precisa de você”, relacionando-o ao assassinato da presidenta. O que tenho curiosidade é saber como descobriu o meu nome, já que escrevi ele usando um pseudônimo.

- Subestima o poder investigativo da Polícia Federal, senhor. Um texto subversivo como o seu atrai alguns fãs. E alguns destes fãs são antigos, e o conhecem pessoalmente.

- Entendo. Mas já notou que o meu texto foi escrito há muitos anos, em outra época, quando o presidente era outro? E que se o texto reapareceu atualizado foi porque alguém o modificou para se encaixar em nossos dias atuais?

- E quem me garante que esse alguém não é o senhor?

O velho soltou uma gargalhada. – Exato, não posso garantir, delegado. O senhor é esperto, mas já pensou que talvez, desta vez, esteja indo atrás dos mocinhos da história?

- Não posso considerar como mocinho quem assassina uma presidenta.

- Mas eu não a matei, delegado. Quem a matou foi uma ideia, foi a filosofia contida no texto “Luva Branca precisa de você”.

- Então o senhor admite que tudo começou a partir do seu texto?

O advogado pigarreou e o velho sorriu trocando olhares com ele, como que respondendo que conhecia bem o terreno aonde estava pisando.

- Admito que escrevi um texto contra a corrupção. Um texto radical, que estimulava aos descontentes a usarem as ferramentas do terrorismo contra os verdadeiros terroristas em nosso país, os corruptos. Minha tese foi aplicar na prática o ditado norte-americano extreme times require extreme measures, adaptado do adágio latino extremis malis extrema remedia, atribuída por alguns ao médico Erasmo. Vivemos em épocas de corrupção extrema e a solução extrema que apontei para esta doença foi eliminar os corruptos. Se eles não se importam com a vida de seu povo, deixando-o morrer em corredores de hospitais por falta de recursos na área da saúde. Ou ser assaltado, estuprado, agredido e morto nas ruas por falta de investimentos em segurança para todos ou em educação para os menos favorecidos que não vêem outra chance de sobreviver a não ser como criminosos. A corrupção afeta diretamente a todos nós, delegado. Eu só apontei uma das forma de diminuí-la, lógica e utilizada há milhares de anos em vários lugares do mundo. Se alguém comprou a ideia, não sou o culpado.

- Para mim, isso soa como incentivo à prática criminosa – respondeu o delegado, colocando mais café em sua xícara.

- O senhor sabe que este argumento é muito falho no meu caso, tanto é que consegui derrubá-lo com o meu pedido de habeas corpus preventivo. Primeiro, escrevi um texto ficcional, que não pode ser usado contra mim por ser material artístico, cultural, apolítico e atemporal, mesmo que algum maluco o considere como sagrado e resolva aplicar literalmente as suas palavras. Segundo, porque o escrevi há muito tempo atrás, sem planejar nada contra ninguém, e qualquer crime prescreve com o tempo, mesmo que seja o de incentivo à prática criminosa, não? E, em terceiro lugar, só o fato de eu divulgar o texto contando o que poderia acontecer já é a minha própria defesa: nenhum assassino revela as suas intenções e planos publicamente.

Os olhos do delegado o traíam. Ele sabia de tudo aquilo, mesmo assim tivera de arriscar. Era a melhor pista que tinha até o momento, depois que o assassino da presidenta se suicidara após cometer o crime. Conseguiu vasculhar a vida do pobre diabo, mas só encontrou desgraças, havia perdido o emprego por causa da recessão, o filho de nove anos fora baleado em uma troca de tiros entre bandidos e polícia e a esposa não aguentando a situação fugira de casa. Boatos diziam que tinha morrido de desgosto. O homem conseguira a arma ilegal emprestada de algum amigo e viajara para Brasília, esperando alguma data festiva nacional em que pudesse se aproximar da presidenta. Trabalhava como pedreiro, comia e dormia quando e como dava. A sua raiva o sustentava, até que surgiu a oportunidade perfeita, uma festa comemorativa pela Seleção Brasileira ter ganho o campeonato de futebol. Quando a presidenta recebeu os jogadores na rampa do Palácio do Planalto e, de lá, todos se dirigiram à multidão para receberem os cumprimentos, em um momento de descuido dos seguranças em que o foco estava todo no time, o pedreiro atirador atirou à queima-roupa na presidenta e depois em si mesmo. Em seu bolso, somente um bilhete escrito “Luva Branca precisa de você”.

- O senhor está ciente de que existem vários grupos organizados se denominando como Luva Branca? Afirmam querer limparem a sujeira como uma empregada faria usando uma luva branca. Um deles até criou um website na internet para medir o nível de corrupção dos principais políticos brasileiros. Quanto mais votado pelos visitantes, mais no topo da lista de próximas vítimas em potencial ele aparece. Os que são eliminados aparecem com um xis em cima da fotografia. Até agora conseguimos identificar, além da presidenta, alguns deputados, um senador e vários vereadores e prefeitos pelo país. É esta a ideia de ordem que o senhor acha que vai colocar um fim à corrupção?

- Pelo jeito não sou só eu, delegado. Apesar de não ter relacionamento com nenhum destes grupos que o senhor citou, não posso dizer que discordo deles. Afinal, estão usando o processo democrático não só para colocar os políticos no poder, mas também para tirá-los de lá. Mas eu o chamei aqui não só para conversarmos, mas para fazer um convite ao senhor.

- Que convite?

- Convido-o à começar a pensar diferente à partir de hoje. Pense em um Brasil sem corruptos e corruptores. Em nosso país tendo todos os seus recursos aplicados em benefícios para à população e não desviados para fazendas de parentes de governantes no Pará e Mato Grosso, ou justificando ganhos milionários em empresas de ex-ministros, secretários ou laranjas. Pense que, enquanto alguém não tem nojo da corrupção ele pode vir a experimentá-la. O senhor conhece a anedota da pimenta?

- Não.

- Havia dois amigos, um tinha nojo de pimenta e outro não gostava. Um dia, viajando, resolveram almoçar em um pequeno restaurante de beira de estrada. Somente depois que serviram os seus pratos perceberam que em tudo havia pimenta. O que não gostava, por estar com muita fome, comeu mesmo assim. O que tinha nojo, só de chegar perto sentia o seu estômago repugnar-se. Resolveu que iria almoçar em outro restaurante mais à frente. Entendeu o meu ponto de vista? Enquanto os brasileiros não aprenderem a terem nojo da corrupção, ela fará parte da nossa realidade cotidiana. E por falar nisso, o senhor citou o website com a lista das próximas vítimas em potencial. Já viu em qual posição está o seu nome?

(texto escrito por Olavo Caetano)